domingo, 25 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Princesa, cangaço e unanimidade"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Na história recente da teledramaturgia brasileira, conquistar e manter cada ponto nos índices de audiência exige das emissoras de televisão encantar continuadamente milhões de telespectadores que hoje têm trocentas opções ao alcance do controle remoto. Neste cenário, o horário das seis, mesmo na emissora líder de audiência, costuma ser mais do que ingrato para qualquer autor de telenovela. O horário, já tido e havido, desde sempre, como o menos nobre da grade que ensanduicha telejornais entre uma e outra novela, herda um público meso púbere da soap opera à brasileira que atende pelo nome de Malhação e pega um público novo meio indefinido, formado pelas pessoas que conseguem chegar da escola ou do trabalho a tempo de ver algumas cenas.

O público herdado de Malhação, em tese, tende, nesse horário, a migrar para a frente do computador ou de qualquer outra tela onde possa conversar on line com amigos da mesma idade. Nesse panorama, Cordel Encantado (cujo último capítulo foi exibido na última sexta-feira), a novela global das seis que revolucionou a estética do gênero no horário e conquistou de braçadas a fidelidade de um público intergeracional e de todas as classes sociais, foi uma prova e tanto do quanto criatividade era algo raro de se ver no gênero nos últimos tempos. O telespectador adorou de fazer brilhar o olho como luxo estético e dramatúrgico de um folhetim que parecia reunir coisas improváveis, elementos que em mãos erradas poderiam virar um panelada sem estilo, coerência e identidade.


BUFÕES - Ao juntar sobre a terra seca e árida do semi-árido do Nordeste elementos aparentemente inconciliáveis, como estética de cinema num horário em que o público não é tido como sofisticado, arquétipos seculares como rainhas e reis ameaçados pela maldade de vilões atormentados, cruéis ou bufões e cangaceiros justiceiros que só ‘relam’ a mão em quem faz o povo sofrer, as autoras Duca Rachid e Thelma Guedes deram um presente de bom gosto e inesperado ao público do horário e inscreveram seus nomes definitivamente na história da telenovela brasileira, a mais rica, a mais cara e a mais sofisticada do mundo.  


A beleza plástica, cenográfica e estética do tipo da vista em Cordel Encantado era coisa rara na televisão quando se falava em telenovela. A trama lançou mão de um tipo de linguagem e rebuscamento de imagens raramente dadas aos (mais)exigentes telespectadores de minisséries exibidas em poucos capítulos e invadindo a madrugada. É impossível ver Cordel e não ver nela o que havia de melhor das minisséries da emissora adaptadas da obra ímpar de Ariano Suassuna, do talento preciosista e perfeccionista de Luís Fernando Carvalho, do humor e da leveza dos produtos do Núcleo Guel Arraes. E tudo isso embalado sob a forma de novela, e das seis, a mais comum das traduções para o produto para as massas a quem supostamente se pode dar algo nem tão sofisticado assim. 


FEIA - O fato é que, enquanto a eterna menina dos olhos da Rede Globo, o novelão das nove, briga com a novelinha das sete para definir perante o público quem criou primeiro ou melhor o papel da heroína feia, pobre, íntegra e rejeitada pelo filho alpinista social e estudante de medicina (Kássia Kiss, na novela das 19h, de Walcyr Carrasco, e Lília Cabral, na das 21h, de Aguinaldo Silva), o telespectador apostava todas as fichas mesmo era no produto azarão, o das seis.


Na trama, tudo parecia irretocável, dos diálogos bem humorados à trilha sonora irretocável, do guarda-roupa dos cangaceiros aos nomes inspiradíssimos e impagáveis dos personagens, como Zóio Furado e a Rainha Mãinha. Sem falar na originalidade de, contrariando a tradição realista da telenovela brasileira, encenar uma fábula com todos os arquétipos dos contos de fadas e associar dois reinos fictícios, um europeu, Seráfia, e um sertanejo, Brogodó, palavra que em si parece grudar como visgo no repertório de qualquer telespectador. Tinha de tudo: amor, romantismo, humor, misticismo, cultura popular e um elenco afinado como há muito não se via. Havia tipos para todos os gostos do consumidor de folhetim: padre, profeta, cangaceiro fazendo as vezes de Lampião e seu bando, prefeito desonesto, marido traidor, mulher encalhada, delegado covarde e um vilão insano. Para os telespectadores agora órfãos, Cordel só tem um defeito: não oferecer um versão disponível em DVD na seção de vídeos das livrarias.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 25 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 18 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Adão, Doralice e as armações de Pedrinho"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Não, isso não é o título de capítulo do livro nem da novela “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. É apenas um bom título para contemplar o corolário de espertezas toscas protagonizadas pelo recém-desabado e apeado ministro dos Transportes, Pedro Novais. Antes mesmo de assumir o Ministério do Turismo, o senhorzinho maranhense, amigo de longa data do todo poderoso José Sarney, já dava demonstrações públicas de que sua gestão seria um prato cheio para quem se dispusesse a procurar lixo na Esplanada dos Ministérios.


Assim que teve o nome indicado pelo seu padrinho político, estourou, na imprensa escrita e nos telejornais, um escândalo de alcova: o ministro, baixíssimo em estatura, com seus 1,55m, estreava no coração do poder trazendo a reboque uma festa que teria dado em um motel do Maranhão. Paga com dinheiro público, claro. Até então, achava-se que nada de mais constrangedor poderia acontecer a um homem que ultrapassara os 80 anos ostentando um daqueles casamentos solidíssimos que a alta sociedade adora citar e no alto de seu sexto mandato conquistado nas urnas do Maranhão como deputado federal.


HOMINHO - Portanto, enquanto tudo pareciam águas plácidas no Governo Dilma e somente a caladíssima ministra da Cultura, Ana de Hollanda, parecia fadada ao falatório associado a quedas em médio prazo, no tempo em que os milhões de Palocci ainda não tinham vindo às manchetes, Pedro Novais já prometia que a pasta do Turismo não teria pela frente apenas o desafio de contribuir para a arrumação da Casa para receber o público da Copa. Seu maior desafio era manter-se no cargo já tendo estreado com o nome e a reputação associada a festinhas em motel bancadas pelo contribuinte. Para uma presidente dita durona, um subordinado desses deve ser um fardo e tanto. Passados sete meses, entre quedas e quedas de outros ministros cujas permanências no governo eram tidas como certas e seguras quando do começo da gestão, estoura outro escândalo nas cercanias de “Seu” Pedrinho, desta vez envolvendo a prisão de todo o primeiro escalão do seu ministério, na Operação. O hominho, no entanto, continuava ‘apregado’ na cadeira do Turismo.


Com a queda de Novais finalmente anunciada na quarta-feira, os telejornais da semana davam conta de que, nos bastidores da Presidência da República, nas negociações entre a presidente Dilma Roussef e o cacique do PMDB, o vice-presidente da República Michel Temer, a condição imposta por Dilma era a de que, pelamordedeus, lhe apresentassem um nome cuja biografia e currículo político lhe permitissem enfrentar a primeira entrevista coletiva à imprensa ao ser indicado para o posto sem ter que passar pelo constrangimento de responder perguntas sobre atos de corrupção ou ilícitos envolvendo seu nome. Os repórteres versados nas vísceras do poder e do PMDB davam conta de que essa exigência apresentada a Temer reduzia o universo de ministeriáveis a nomes contáveis nos dedos. Sim, a coisa anda tão feia no Planalto Central que não basta a garantia expressa de que o novo ministro vá ser de uma lisura ímpar no cargo. Se trouxer um saco de roupas sujas do passado, como o de Novais, o prejuízo para o governo torna-se insuportável. A sujeira do passado não resistirá a uma manchete de jornal. E o que há de ministro tentando esconder sacos e sacos de roupas sujas acumuladas nos  invernos passados...

MOTEL E CHOFER - Foi a manchete da Folha de S. Paulo da última terça-feira que colocou uma pá de cal avassaladora sobre as armações do ministro Pedrinho. Durante nada menos que 7 anos, de 2003 a 2010, simultaneamente ao exercício do mandato de deputado federal, o ministro pagava a governanta de sua residência com o dinheiro da Câmara dos Deputados, onde a mesma era contratada como secretária parlamentar, embora passasse o dia cozinhando e cuidando do apartamento funcional do então parlamentar. Em janeiro, quando Novais tornou-se ministro, a moça, Doralice, foi exonerada e imediatamente contratada por uma empresa terceirizada que recebe um milhão e meio de reais por ano para fornecer mão de obra para o Ministério do Turismo.



Não era tudo. No dia seguinte o mesmo jornal estampava a informação de que a mulher do deputado tinha um motorista particular, Adão, também servidor da Câmara, lotado no gabinete de um outro deputado do PMDB, desde que fora transferido do gabinete de Novais, quando este saiu do Legislativo para o Ministério. Ou seja, para quem tem como dar de presente à mulher um chofer full time remunerado com dinheiro público, é fácil, fácil ser perdoado por ela por conta de uma festinha à toa num motel para onde ela não foi convidada. E talvez isso explique porque todos os andamentos da Copa estejam tão atrasados. Os nomes públicos que poderiam fazer o processo deslanchar estão é exercendo sua criatividade para fazer com que servidores públicos como Adão e Doralice possam ser introduzidos em armações que lhes permitam o bom andamento da copa, não Mundial de Futebol, mas a doméstica, a extensão de suas cozinhas. 



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 18 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 10 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Aonde o telejornal vai, o Estado vai atrás"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Se há um aspecto com o qual o telespectador assíduo e atento dos telejornais está acostumado é com a repetição de cenas nas quais as câmeras de TV, ocultas ou não, denunciam uma prática criminosa ou desumana e no dia seguinte o Estado está no mesmo local, como se convocado e pautado pela imprensa. Em um país onde as coisas funcionam, a ordem mais natural é aquela em que o Estado e suas ações pautam a imprensa, no sentido de transformar tais ações em notícias ou cobrar dos gestores públicos o cumprimento destas em grau satisfatório.

No contexto brasileiro, no entanto, há omissões crônicas do Estado, práticas sociais criminosas que se repetem há anos e para que o poder público venha à sociedade prestar contas ou oferecer possibilidades de solução é preciso que a imprensa, sobretudo a televisão, chegue antes e mostre a barbárie da vez. Um exemplo clássico desta prática se deu na primeira sexta-feira de setembro, quando o Jornal Nacional exibiu uma reportagem na qual denunciava a prática sistemática e ostensiva do tráfico e consumo de drogas, aliada ao roubo e à agressão física dos consumidores pelos traficantes, no centro histórico de Recife.


GLOBETROTTER - Desnecessário dizer que tal cenário exibido pelo Jornal Nacional não se tratava de algo episódico, de mais ‘um caso isolado’, como adoram dizer os gestores públicos quando são confrontados de calças curtas diante das mazelas sob suas pastas. O fato, registrado com câmera oculta pela equipe do telejornal, é algo que se repete desde tempos imemoriais naquele local sem que o Estado tomasse uma atitude pelo fato de as coisas serem daquele ou de outro modo. No dia seguinte à exibição da reportagem-denúncia, a própria emissora já estava no local para acompanhar as medidas tomadas pelo Estado: o policiamento havia sido amplamente reforçado no centro histórico, batidas foram feitas, alguns suspeitos foram presos e o movimento criminoso, miraculosamente, havia desaparecido.


A primeira pergunta que deveria ser dirigida, não ao Governo de Pernambuco, à Polícia de Recife, mas a toda e qualquer instituição pública em contexto semelhante é: as medidas foram adotadas porque uma determinada prática criminosa fora realizada em um determinado espaço ou o governo agiu porque o Estado hoje parece agir não para atender às necessidades dos cidadãos, mas para dar uma resposta e uma satisfação para que um determinado meio de comunicação filme, narre, relate? Ou alguma autoridade quer fazer a opinião pública crer que a Polícia de Recife, por exemplo, nunca tomou conhecimento de que o cenário nas noites de determinados points do centro histórico da cidade era aquele há anos? No entanto, a presença policial estava ali para dar uma satisfação e uma matéria ao Jornal Nacional e aos seus telespectadores. O fluxo das ações públicas parece invertido: é o Estado que segue a televisão, indo atrás dela para se justificar quanto às suas incompetências e omissões. Só reage quando um flash estoura na cara.


Como a Rede Globo é líder de audiência em seus telejornais, torna-se, automaticamente, uma grande acionadora dos poderes públicos. De modo geral, é como se os governantes vivessem dormindo em berços esplêndidos e só se dessem ao trabalho de sair dos seus cochilos modorrentos quando a imprensa lhe gritasse na cara, estampando um retrato social feio. Esses retratos podem existir à vontade, desde que não sejam exibidos jornalisticamente, pois só quando isso acontece é que os fatos parecem ganhar vida para gestores públicos. Um exemplo concretíssimo disso é o projeto Jornal Nacional no ar, o avião do jornalismo da Globo que cruza o país, um globetrotter nacional da notícia in loco.



RICARDO TEIXEIRA - Como na edição do dia os apresentadores anunciam onde o avião estará no dia seguinte e fazendo o quê, prefeitos, governadores, secretários, delegados e tudo o quanto é gato pingado têm se virado nos 30 para maquiar realidades em menos de 24 horas para tentar ficar bem na fita na edição do telejornal no dia seguinte. Não, não é apenas Ricardo Teixeira que compartilha a tese dos governos militares de que um fato ‘se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu’.  


Um exemplo recente de que o Estado vive a reboque das denúncias feitas na televisão foi o episódio denunciado nos telejornais em que uma mãe em trabalho de parto foi recusada por mais de uma vez em várias maternidades de Belém, resultando na morte dos dois bebês. No dia seguinte o avião do Jornal Nacional estava ‘na maternidade’ e o que não faltavam eram autoridades cheias de boa vontade prometendo a Deus e à Globo abrir inquéritos, fazer auditorias, demitir e punir culpados. Alguém acredita que alguma medida punitiva seria adotada se o fato não tivesse sido denunciado na imprensa por várias emissoras de TV e por vários jornais? Ou que o tratamento dado à mãe de Belém é muito diferente do recebido diariamente por milhares de mulheres no resto do país?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 11 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 3 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Jaqueline Roriz e o ladrão estrebuchando"

Malu Fontes, professora e jornalista
Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.

O contexto em que as imagens vieram à tona, era, inicialmente, o de abordar a atitude condenável de policiais de São Paulo que protagonizaram a cena, a quem, como representantes do Estado de Direito, cabe socorrer qualquer indivíduo sob condição de sofrimento. As imagens surgiram, portanto, a serviço da tese da defesa dos direitos humanos, como forma de ressaltar que as instituições policiais não podem repetir o comportamento dos criminosos, impingindo-lhes o mesmo tratamento que estes dão às suas vítimas, os cidadãos alvos da violência brasileira cotidiana. Mas uma parte considerável da sociedade que teve acesso ao episódio aprovou os policiais, criticou a imprensa pela denúncia e achou o sofrimento imposto ao ladrão algo do tipo pouco, bom e doce.


VINGANÇA - Na mesma semana em que vieram a público as imagens do assaltante estrebuchando sob o gozo do olhar policial, também foi veiculado na imprensa um episódio em que policiais encurralam um grupo que tentava assaltar um caixa eletrônico em São Paulo, deixando-os sem chance de defesa para se entregarem e sair vivos do assalto frustrado. Mais uma vez, a polícia foi acusada, sob a lógica dos direitos humanos, de provocar a morte dos assaltantes sem chance de defesa. Embora seja através da televisão que esses casos ganhem repercussão nacional, é na imprensa escrita, pela própria natureza dos meios, que é possível acompanhar a reação social diante desse tipo de fato.


As cartas de leitores publicadas em jornais impressos de circulação nacional mostraram durante a semana o tamanho do desafio da imprensa quando se trata de cobrir a violência cotidiana da qual todas as regiões do país são vítimas. O que parece ter se instaurado entre a imprensa e os consumidores de informação, que, são simultaneamente vítimas reais ou potenciais da violência noticiada, é uma equação doentia, sem meios termos, nenhum bom senso, grau de civilidade ou uma qualidade razoável de argumentos. Neste cenário, tem-se, de um lado, uma imprensa que praticamente louva a atitude policial em casos como estes citados e incita o cidadão à vingança e à defesa da pena de morte como forma de enfrentar a violência. Do outro lado, uma imprensa que, ancorada no Estado de Direito, denuncia os crimes cometidos por policiais que reproduzem em suas ações a violência do banditismo. Esta, no entanto, tem sido alvo de reações cada vez mais iradas de cidadãos, que a acusam de estar do lado dos ladrões. Ou seja, à imprensa que não assume o papel de juiz e não aponta o dedo, ela mesma, para o bandido, na condição de acusadora, empurrando-o para a tortura máxima e à morte o quanto antes, sobra o lugar de condenada, assemelhada, ela mesma, aos bandidos.   

SACOLA DE DINHEIRO - Se a imprensa está dividida em duas, uma que denuncia policiais violentos, mesmo que esta violência seja praticada contra bandidos explicitamente em ação, e outra que, nos moldes dos programas policialescos que usam até helicópteros para perseguir imagens de ladrões em fuga, não se conforma com a inexistência no país da pena de morte, a audiência, os leitores, a sociedade, também repete esta divisão. Embora parte dos brasileiros que reivindicam para si o lugar de maior esclarecimento e formação educacional faça cara feia para a imprensa justiceira que saliva por não poder ela mesma prender, arrebentar e matar, é fato que muito mais gente adere à tese desta imprensa e cai de pau na outra, que denuncia abusos policiais. Esta vem perdendo o direito de falar em direitos humanos, pois tem sido reiteradamente acusada, por sua audiência, de ser uma defensora de bandidos, de fazer a opção pelos bandidos, quando deveria ficar ao lado da população e da polícia.

Enquanto a sociedade e a imprensa brasileira dividem-se deste modo, com o lado justiceiro cada vez mais numeroso e arregimentador de seguidores, na prática nada muda, a não ser, e para pior, o tamanho do medo que acompanha todo e qualquer brasileiro hoje. Do mesmo modo, enquanto a classe média faz suas articulações argumentativas e chega a determinadas conclusões, por que o banditismo também não haveria de fazer as suas, ora? Se o povo, sempre muito bem intencionado e defensor da paz, acha que a polícia está autorizada a matar bandido sem chance de defesa e a ver com prazer um ladrão ‘estrebuchando’, por que o assaltante não pode achar razoável considerar que, se Jaqueline Roriz pode levar para casa uma sacola de dinheiro que não era seu sem sequer correr o risco de perder o mandato por isso, por que ele não tem o direito de ter a vida poupada por um policial que o flagra em um assalto?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 04 de setembro de 2011. Jornal A Tarde, Salvador.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "A face relativa dos mortos"*

 *Texto foi publicado em 13 de junho de 2010 e está sendo disponibilizado no blog agora

Malu Fontes, professora e jornalista
Como se sabe, todos os gêneros televisivos e jornalísticos, em temporada de Copa do Mundo de Futebol, curvam-se ao tema da bola. Nesse contexto, é impossível que as informações que passam completamente ao largo disso não fiquem submetidas a um escamoteamento. Mas, mesmo nesse período, em que a impressão que se tem é a de que o controle remoto conduz o telespectador sempre para um mesmo canal (tente passar um dia sem ouvir na TV as palavras vuvuzela, Soweto, Bafana Bafana e uma dúzia de outros termos e tire suas conclusões), tamanha a semelhança das pautas, o gosto pela informação é amigo íntimo de um eterno pendor pelo susto e pela infindável capacidade de surpreender-se.

Fora o tema obrigatório da Copa, a semana dos consumidores de informação em Salvador foi marcada por dois fatos: o primeiro, a prisão de 11 candidatos de um concurso candidatos a nada menos que uma vaga de oficial da Polícia Militar, todos fraudando a prova. O outro, a imagem do cadáver de Irmã Dulce, com resquícios da pele do rosto extremamente escurecida por 18 anos de túmulo e a dentadura exposta, em um ritual que, se não era a intenção da Igreja, foi, sim, transformado num espetáculo grotesco em nome da fé, embora a maioria dos telespectadores tenha fingido não estranhar, em nome de um tabu moral e religioso.

SANTIFICAÇÃO NO TELÃO - Os dois episódios, ambos fortemente noticiados na imprensa local e nacional, são fatos formuladores de perguntas para quem não cansa de buscar respostas na vã tentativa de ler o mundo contemporâneo em todos os seus paradoxos. É impossível ver as emissoras locais e nacionais noticiando e exibindo centenas de pessoas em vigília numa igreja em torno do corpo exumado de Irmã Dulce em tom solene e não se perguntar por que, no contexto jornalístico do cotidiano, a imagem de um cadáver choca tanto as senhorinhas católicas, contidas, de boa educação e cheias de cerimônia com a morte, e um ritual religioso de santificação em torno de um cadáver humano não só as comova, como as atraia, as emocione e as leve a fazer questão de encarar um corpo desenterrado com o que sobrou do rosto sob 18 anos embaixo da terra.


Para tranqüilizar o desejo dos fiéis por tal visão, a Igreja Católica em Salvador avisou na imprensa, já no domingo, que as etapas da cerimônia que não fosse vista diretamente pelo público seriam exibidas em telões. Sim, os rituais da santificação acompanharam muito bem a modernização do mundo e lançam mão da tecnologia digital para mostrar um corpo exumado. Enquanto isso, usar camisinha e anticoncepcional continua sendo pecado, dizem as mesmas autoridades que providenciam telões para transmissão de exumação.  Tudo é certo, tudo é errado e nada é uma coisa ou outra. Algo intolerável num contexto é venerável em outro. É tudo uma questão de referencial e ponto. E como se fala aqui de TV, é apenas uma questão de enquadramento. Cadáver exibido no Na Mira causa repulsa. No telão da Igreja, aproxima o indivíduo de Deus.   


A mesma telespectadora contrita que têm ânsias de vômito ao ver na TV a imagem de um corpo morto pela violência, larga tudo em casa e corre para a Igreja para se emocionar com a morbidez de prostrar-se por minutos diante de um corpo reduzido, em termos de imagem, a uma pele radicalmente escurecida mumificada contornando uma dentadura de um branco reluzente e desproporcional em tamanho pelo encolhimento do que foi uma face. Entrevistadas pelos repórteres de TV, as senhorinhas contritas, sempre entre lágrimas, falam do quão sereno está o rosto da freira morta. A família não cansa de repetir o milagre da ausência de odores. O telão é só o mais simples dos artifícios desse show religioso em torno da morte embalada em santidade.

TABU – A prisão dos 11 candidatos a uma vaga de oficial da PM também se tornou manchete. Os onze foram flagrados fraudando o concurso, usando ponto eletrônico para transmissão de respostas, ao custo de R$ 20 mil pela aprovação (de cada um). Deus nos salve de uma polícia que já entra pelas portas dos fundos, corrupta e corrompida, pagando 20 mil para ter um salário de R$ três mil. E nos salve também de dentaduras desenterradas expostas na TV, santas ou não. Já bastam os dentes recém compradas e fora de tamanho ostentados por Ana Maria Braga e Stênio Garcia. Sim, abordar o grotesco nas hostes da religião mais poderosa do País é um tabu, inclusive para muitos que lêem este texto. Cadáver, nesse cenário, deveria atender pelo nome de relíquias. Mas este é um texto que se assume como aquilo que é: um ponto de vista laico.



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto originalmente publicado no jornal A Tarde, Salvador/BA, em 13 de junho de 2010. maluzes@gmail.com