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domingo, 24 de junho de 2012

Teleanálise | "O teste do sofá e o garoto de Maluf"

Malu Fontes

Poucas imagens do jornalismo causaram tanto alvoroço e repercussão nos últimos tempos quanto as fotografias e cenas exibindo em multiplicidades de poses o ex-presidente Lula, seu candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, e o nome mais associado à corrupção no Brasil nas últimas quatro décadas: Paulo Maluf. A cena soava pornográfica até mesmo para quem acredita mais em duende que em coerência política. Lula e Maluf felizes e sorridentes, tendo ao meio um Haddad aparentemente constrangido de riso amarelado. Os três abraçados, nos jardins imperiais da mansão de Maluf, para onde o anfitrião os atraiu sob o álibi de selar e anunciar seu apoio eleitoral à chapa petista. Ofereceu uma feijoada e fez questão de encerrá-la na área verde externa do seu bunker malufista, sob o olhar de fotógrafos e cinegrafistas convocados para imortalizar o tão inusitado encontro na memória política do país.  

Junto a Lula, Maluf afaga o candidato Fernando Haddad. Foto: Balaio do Kotscho
TESTE DO SOFÁ – Pragmático e sempre ancorado nos argumentos do cinismo que são peculiares à média da classe política brasileira, Maluf deu a tônica da essência das coisas quando perguntado sobre onde teriam ido parar os resquícios ideológicos partidários que separavam esquerda e direita. Segundo anunciou-se no jornalismo político, a sua resposta teria sido algo do tipo: já não existe nem direita, nem esquerda. O que existe são segundos na TV. Ou seja, os abraços, os tapinhas, a feijoada com direito a cenas públicas de afagos nos jardins impostos a (e imediatamente aceitos por) Lula em troca do apoio de Maluf à candidatura de Haddad seriam uma versão eleitoral do teste do sofá.

Há quem diga que, ao longo da história da televisão brasileira (quiçá do mundo, quiçá do cinema internacional), muitas mulheres lindas, com ou sem talento, precisaram submeter-se ao famoso teste do sofá, oferecendo seus encantos a algum diretor ou chairman poderoso das emissoras para, assim, obter oportunidade e espaço na telinha. Pois bem, esta campanha eleitoral que se aproxima será uma campanha antecedida e marcada pelo ‘teste do sofá’, onde alhos e bugalhos estão se misturando sem qualquer pudor desde que sentar no sofá do ex-opositor signifique uns segundinhos a mais no horário eleitoral gratuito.

CINISMO - Foi isso que Lula foi fazer com Haddad na mansão de Maluf: o teste do sofá. Em troca dos preciosos tempinhos do partido de Maluf na TV no horário eleitoral gratuito. Do mesmo modo, por aqui, na Bahia, o DEM também apelou para a mesma estratégia assediando o Partido Verde e uma militante dos movimentos sociais da periferia e do movimento negro. Se um dia o DEM de ACM Neto já contestou juridicamente as cotas raciais na universidade e agora tem como vice Célia Sacramento, uma árdua defensora das cotas, os antagonismos entre ambos, como diria Maluf, não mais importam. O que importa são os preciosos segundos na TV que o casamento político do DEM com o PV proporciona à campanha eleitoral.

E na onda do teste, o cinismo se espraia sem qualquer resquício de pudor. O próprio ex-presidente Lula, ao posar com a presidente Dilma durante a Rio+20, dois dias após posar com Maluf e um dia após a ressaca política de ver a vice do seu candidato, a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, recuar da chapa alegando repulsa às imagens da véspera, saiu-se com um trocadilho infame. Referiu-se à foto com Dilma como sendo ambientalmente correta, numa oposição à politicamente incorreta, literal, com Maluf. No mesmo evento, o governador da Bahia, Jaques Wagner, também se sentindo confortável no posto de piadista experimental disse que em tempos de Rio+20 era preciso ver a aliança com Maluf num contexto em que sustentabilidade pressupõe não exterminar qualquer espécie [política]. Muito engraçado, governador. Além disso, para Wagner, para vencer as eleições em São Paulo vale o esforço de aliar-se a Maluf.  

‘MEU GAROTO’! - Entre o teste do sofá visando a campanha eleitoral na TV, que logo entrará nos lares brasileiros assustando o telespectador que tiver estômago para assisti-lo, e as imagens de Lula no bunker malufista, a cena mais tradutora da canastrice bufa do encontro talvez seja a de Paulo Maluf passando a mão nos cabelos recém-cortadinhos de Haddad. Vista na TV e nos jornais a imagem parecia pedir desesperadamente uma legenda. Poderiam ter tomado-a emprestada do bordão de um dos personagens antológicos de Chico Anísio. Quem não lembra da dupla de palhaços Cascata (Chico) e Cascatinha (Castrinho), cujo bordão era: ‘meu pai-pai!; meu garoto!’? À luz da imagem, Maluf transformou Haddad no garoto de Maluf.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 24 de junho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 9 de junho de 2012

Teleanálise | "As malas de Elize salvaram Ronaldinho"

Malu Fontes


Não fosse a bela, rica e loura Elize Matsunaga dar um tiro na cabeça do marido, esperar horas e horas para o sangue do corpo morto coagular e, assim, evitar sangramento para então esquartejá-lo até fazer caber os pedaços em três malas e carregá-las sob o olhar sempre vigilante das câmeras onipresentes de um elevador, Ronaldinho Gaúcho é quem teria ocupado o posto de grande réu da semana nas manchetes da telejornais. A semana televisiva começou com mais uma bomba de vento jornalístico.


Todas as emissoras foram atrás da sanha de Patrícia Amorim, a moça meio sem sorte ou norte do Flamengo, que, com o propósito de ganhar um round numa batalha milionária trabalhista orçada em 40 milhões movida pelo jogador contra o time, tirou da cartola imagens mostrando uma mulher entrando com uma mala num dos quartos do hotel onde a equipe estava concentrada, em janeiro deste ano, em Londrina. As câmeras, assim como denunciaram o esquartejamento até então inconfessado de Elize Matsunaga, também mostram o que parece que nem os torcedores mirins têm dúvida. Nove entre 10 (e há quem diga que são 11 a cada 10) jogadores de futebol fazem sexo ou outras coisas nas concentrações. As câmeras mostram Ronaldinho entrando e saindo do quarto da moça da mala e saindo cedinho, todo vestido para o treino.

MORTES - O detalhe jornalístico surpreendente do episódio não é o que as imagens mostram, mas a forma como a imprensa é pautada ao gosto e ao sabor dos discursos dos donos da notícia em cada área, seja esporte, política, celebridades, etc. Todas as emissoras, sem exceção, mostravam Ronaldinho praticamente como um criminoso flagrado durante o ato. Desde quando a maioria dos grandes astros do futebol brasileiro tem como característica exatamente traços como contenção, bom mocismo, bom comportamento, sobriedade e fidelidade (no caso dos casados)?


Da história inteira de álcool e mulheres de Garrincha ao bafafá entre Ronaldão e os travestis, passando por Romário, Renato Gaúcho e os trocentos casos envolvendo Edmundo, embriaguez e até mortes, em que aspecto Ronaldinho Gaúcho representa uma evolução para pior? A única diferença parece ser a câmera de um hotel. E se Patrícia Amorim acha isso tão grave e transgressor assim, com a anuência da imprensa de um modo geral, que deu à coisa o tamanho da repercussão que deu, por que não tomou providências em janeiro?


JUMENTOS - E por que o Flamengo contratou Ronaldinho sabendo que na Espanha o jogador já era uma figura do balacobaco? E por que ninguém do Flamengo nunca ouviu os lamentos dos moradores do condomínio onde o moço morava e dava baladas que só não perdiam para as de Adriano? Se nas festas de Ronaldinho o traço era a desproporção infinitamente superior entre a quantidade de mulheres e o barulho da música, a marca Adriano era dar um toque de Calígula aos seus eventos. Qualquer busca no Google mostra que em suas festas eram comuns a junção de ex-bbbs, anões e, sim: jumentos. Não causará estranhamento se a qualquer momento a direção do Flamengo acusar o gaúcho, com a anuência da imprensa para a divulgação, de infração contratual no quesito estética, sob a alegação de que comprou um galã e recebeu um Shreck Black e dentuço de chuteiras. 


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 10 de junho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

domingo, 3 de junho de 2012

Teleanálise | "Quem se importa com o futuro alheio?"


Malu Fontes


Doze dias de greve dos policiais na Bahia foram capazes de revolver diversos segmentos da sociedade baiana, não apenas na negociação diária em busca de saídas para o impasse entre grevistas e o governo do estado, mas, sobretudo no debate irado que se travou nos meios de comunicação em torno do argumento do desamparo ao qual a população estava submetida e dos prejuízos gerados à economia pela redução da circulação de pessoas no comércio.


Os telejornais locais e os nacionais deram ampla cobertura ao fato e o barulho social gerado pela paralisação tinha força de um urro, ora acusando o governador de omisso e irresponsável por não negociar com os policiais, ora acusando os policiais de bandidos, irresponsáveis e até de contribuírem diretamente para o aumento do número de homicídios. Em outras palavras, parte da imprensa disse com muito prazer que uma certa polícia miliciana andou executando gente durante a greve a torto e a direito.

METRÔ – Há pouco mais de uma semana a maior cidade do País, São Paulo, acordou com os metroviários de braços cruzados e mesmo quem vive no Amapá foi bombardeado o dia inteiro por imagens televisivas de todas as emissoras mostrando do alto a cidade caótica, cena, aliás, que nem precisa de paralisação de metrô para ser capturada por câmeras de TV, em se tratando de São Paulo. A greve não durou um dia. O poder político e o poder econômico, diante do prejuízo que se desenhou, arranjaram uma solução urgente e 24 horas depois tudo estava resolvido, com conquistas para os metroviários.


Em Salvador, que nunca pôde contar com o luxo de ter um metrô, no mesmo dia quem cruzou os braços foram os motoristas e cobradores de ônibus, deixando cerca de um milhão de pessoas sem transporte e reduzindo radicalmente a circulação de dinheiro no comércio. Como quem anda de ônibus em Salvador está em muita desvantagem social e econômica em relação a quem anda de metrô em São Paulo, a coisa demorou um pouquinho mais que lá para se resolver, mas a greve não se estendeu nem até o fim de semana.


RENITENTE - Enquanto isso, na Bahia, numa outra dimensão da vida, para um grupo de pessoas que de certo modo carregam nas costas a única idéia de futuro que este país pode ter, os professores, uma greve se arrasta caminhando para dois meses, 60 dias, e a impressão que se tem na capital, em Salvador, é que nada está acontecendo, que nada está fora do lugar ou da ordem. Milhares de alunos sem aula há praticamente 60 dias, um discurso renitente do governo que contesta até as decisões judiciais sobre o pagamento dos salários dos professores e com exceções de uma reportagem de TV aqui e ali ou de um comentário de apresentador, quem parece socialmente incomodado com a greve e suas consequências.

Quando a polícia para e todo mundo fica com medo de sair às ruas e deixa de fazer compras, a economia do país e o medo da violência crescer ainda mais fazem a população comum sair do silêncio, mesmo que seja para dizer absurdos. Quando o transporte público para e os empregados não podem ir trabalhar e o comércio e a indústria veem essas ausências transformadas em perda concreta de dinheiro, dá-se um jeito de forçar o poder público a se virar nos 30, negociar o que quer que seja para a ordem das coisas se restabelecer. E a cidade vazia, os shopping centers vazios e a paisagem das ruas sem polícia ou sem ônibus geram excelentes imagens de TV.

OFENDIDOS - Já milhares de meninos e meninas pobres, sem aula, cada um em sua casa, sem poder nenhum, que imagem haverão de gerar para o telespectador? A lógica parece simples e não é da televisão, mas, antes, da sociedade. Quando os policiais ou os metroviários e rodoviários cruzam os braços, a sociedade compreende imediatamente que o seu presente, o imediato, o aqui e o agora estão comprometidos. E como pode o direito de ir e vir do cidadão ser assim cerceado, pensa a maioria e aponta a metralhadora de pressão para os governantes descansados, obrigando-os a reagir.


Já os professores da rede pública, se cruzam os braços, quem se importa? Isso não diz respeito ao presente de ninguém, somente ao futuro, e mesmo assim já incerto, de um universo de jovens pobres para quem a greve, cada vez mais silenciosa socialmente, é apenas mais um elemento de consolidação da falta de acesso à cultura, à informação e à formação que os habilitariam a entrar na universidade sem serem ofendidos porque precisam de cotas. A greve dos professores quase não passa na TV porque diz respeito ao futuro alheio.



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 03 de junho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 19 de maio de 2012

Teleanálise | "A auréola de Carolina e os escravos do Brasil"

Malu Fontes

Muitas vezes as matérias jornalísticas exibidas na televisão revelam muito mais sobre o país e seus problemas por aquilo que escondem do que por aquilo que abordam e revelam abertamente. Durante a semana, três reportagens exibidas em diferentes telejornais são exemplos claros do quanto é possível informar sem informar. Tudo bem que seria exagero e radicalismo dizer que boa parte das matérias que podem ser caracterizadas como tais mais desinformam que informam. Não é verdade. Mas não se pode silenciar que estas deixam o telespectador desamparado quanto a instrumentos críticos que lhes permitam refletir melhor e mais criticamente sobre aquele assunto abordado.


As três reportagens, exibidas em dias diferentes e em diferentes telejornais. A primeira: toda a operação de cuidados e investimentos necessários adotados pelos produtores de flores da cidade paulista de Holambra, o principal pólo nacional de floricultura. Em datas comemorativas como o dia das mães e dos namorados, centenas de caminhões de grande porte e cheios de triques triques, como refrigeração na medida e suspensões que ultrapassem a perfeição mecânica, saem de Holambra e cruzam o país em centenas, milhares de quilômetros, para entregar flores perfeitas ao mercado nacional.


NO LOMBO - Se isso não leva o preço das flores para a estratosfera? Não se toca no assunto. Para que estragar assunto tão belo? Mas isso não é o mais importante desse exemplo: o lobby das grandes montadoras de automóveis na condição de anunciantes de TV é tão poderoso que ninguém nunca discute a sério que os custos de Holambra valem para tudo o que o brasileiro consome. Carne, peixe, grãos, cruzam o país no lombo caríssimo de caminhões. Enquanto isso, a construção de uma malha ferroviária nunca é pauta nem agenda política de nenhum programa jornalístico, de nenhum candidato a nada ou eleito para o que quer que seja. Quem se importa? As montadoras precisam vender seus caminhões, sustentando a lógica do transporte lento, caro e ineficiente que só serve para encarecer a vida e alimentar a eterna corrupção dos reparos constantes das estradas esfoladas por tanta carga pesada.

A segunda matéria: apenas poucas horas após a identificação dos hackers sebosinhos que revelaram ao país o tamanho e a cor da auréola dos peitos de Carolina Dieckmann na web, o Congresso nacional acudiu correndo e aprovou no ritmo the flash o projeto que circulava na casa há teeeeempos tornando crime invasão de computadores, violação de senhas, obtenção de dados sem autorização, a ação de hackers, a clonagem de cartões de crédito ou débito, enfim, os cybercrimes. Não, não estavam querendo ser manchete nos produtos jornalísticos nem serem oportunistas ao solidarizar-se com uma famosa global. Foi coincidência. Se correram assim, ágeis como coelhos, certamente foi pensando no bem comum do cidadão brasileiro.


BCHOS-PREGUIÇA - Mas a informação sobre a reação rápida dos deputados diante das vergonhas expostas de graça e sem fotoshop de Mrs. Dieckmann ainda diz muito pouco sobre os deputados se analisada jornalisticamente isolada. Ganha em cores e profundidade ideológica do tipo de parlamentares comprometidos que temos é quando esta mesma informação é contrastada com a terceira matéria que ilustra este texto. Na mesma semana, os mesmos deputados tiraram os seus da reta quando foram conclamados a votar o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) do Trabalho Escravo. A pressão da bancada ruralista não permitiu, até agora, após várias tentativas, que a PEC fosse votada. Se aprovada, estabelece a pena de perda da propriedade como punição para quem mantém trabalhadores em regime de escravidão ou em condição degradante.

Sim, está correto transformar em crime o cybercrime. Mas por que a exposição das vergonhas de uma celebridade da emissora mais poderosa do país leva os parlamentares a correrem em disparada para ficar bem na fita e aprovam em tempo recorde uma lei e, ao mesmo tempo, estes mesmos deputados, tornam-se bichos-preguiça retardatários, letárgicos quando se trata de aprovar lei que protege gente escravizada em 2012? Talvez nem fosse preciso responder que trocentos deputados e senadores que não tomaram conhecimento da Abolição, volta e meia são acusados de manter mão de obra escrava em seus latifúndios no Brasil profundo. Mas já que entre as vítimas não está nenhuma Carolina Dieckmann, quem se importa? Nem a imprensa, sobretudo o telejornalismo, cuja cobertura sobre a eterna recusa dos nobres parlamentares de votarem (e aprovarem, se é que vão fazê-lo) da PEC do trabalho escravo foi menos que pífia.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 20 de maio de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com


sábado, 28 de abril de 2012

Teleanálise | "A indústria do bem e suas lavanderias de imagem"


 Malu Fontes

Apesar de a crise econômica que desde 2009 vem chacoalhando o mundo, inclusive o mundo dos muito ricos, ter abalado um tantinho o chão das grandes corporações de capital nacional e multinacional, ainda são elas que dão as cartas (e as caras) da economia globalizada. Não há Estado topetudo que tenha poder para enfrentar o poder e o capital das grandes empresas, exceto nas ditaduras, onde as duas coisas se misturam e viram uma só. Para traduzir o poderio inabalável das grandes corporações há dois documentários mais que ilustrativos: Inside Job e The Corporation, ambos lançados no Brasil, o primeiro de 2010 e o segundo de 2003.


Mas este não é um texto sobre as grandes corporações e suas formas tentaculares de agir nos mercados do mundo. É sobre a publicidade veiculada por grandes empresas para lavar suas imagens para lá de duvidosas diante do público consumidor. E nesse aspecto as grandes multinacionais e as medianas paroquiais rezam pelas mesmas cartilhas de comunicação institucional. Todas exibem em suas peças publicitárias televisivas recados primorosos para o público avisando o quanto são boazinhas magnânimas e o quanto investem para proteger os pobres e desvalidos de conta corrente.


LIVROS POR METRO - Para ficar nos arredores da vizinhança, as emissoras locais estão atualmente exibindo duas campanhas publicitárias que são um primor de ironia quanto aos méritos das empresas às quais se referem: a de uma indústria química sediada numa das praias mais valorizadas do litoral norte de Salvador (localizada na própria praia, literalmente) e a de uma empresa de construção e incorporação de apartamentos voltados para a classe média que se quer alta. Há vários outros cases, mas, para a exigüidade do espaço, estes são suficientes para ilustrar o quanto em tempos nos quais se tornou obrigatório falar de responsabilidade social, sustentabilidade e coisas que tais, contratar um bom cérebro publicitário e adotar uma causa bonita já é coisa suficiente para ficar bem na fita.


No caso da indústria química, escolheram uma menina certamente moradora das imediações da fábrica, tida e havida no passado e no presente como causadora de danos bravos ao meio ambiente local (há coisa mais pornográfica em termos ambientais que uma indústria química numa praia?) e mandaram avisar na televisão que está feliz da vida porque já leu dezenas e dezenas de livros e vai chegar a 200. Primeiro que, se a coisa tivesse mesmo compromisso com o incentivo à leitura não seria mais recomendável que a garota testemunhasse sobre o que encontrou nos livros, a aventura, a subjetividade, o alargamento do mundo, a obra de um Lobato, de um Júlio Verne, etc. Falar que a meta é passar de 60 para 200 parece coisa de novela, onde os livros são de mentira e são comprados por metro, como anunciou sem pudor a personagem Carminha, de Avenida Brasil, esta semana. Apontado para a estante da casa, puxou uma coisa parecida com três volumes de uma enciclopédia e retirou da estante uma moldura preta de madeira oca, pintada para fazer parecer lombadas. Sim, livro e leitura remetem a qualidades e não a quantidades. Mas o recado está dado e assim fica: a empresa espalha componentes químicos mar e natureza adentro e a menina dos cachinhos é convocada para anunciar à Bahia que essa mesma empresa é uma fofa e que de tão bondosa lhe proporcionou a leitura de uns quantos livros na biblioteca montada para fazer as vezes de lavanderia da imagem. O anúncio na TV coroa o recado.


CONVULSÃO - Já a construtora e incorporada exibe uma campanha para vender seus apartamentos que é um clássico no setor imobiliário, repetida em 11 a cada 10 lançamentos de condomínios de luxo. Onde havia antes um restinho de mata virgem intocada, incluindo fauna e flora, claro, passa-se um trator, mata-se tudo o quanto é bicho, espalha-se escorpião (aparentemente desdentado) até para a casa do prefeito e no local são construídos trocentas torres apartamentos ou centenas de casas de alto padrão. Sim, a floresta TEVE que ser removida para dar lugar ao empreendimento, mas o que diz o anúncio publicitário para os compradores: venha morar em um lugar onde a natureza está preservada. E, de novo, para todos ficarem bem na fita, os mais pobrinhos das imediações, se crianças, ganham uma brinquedoteca para a comunidade; se mais maduros, com sorte, garantem um emprego de doméstica, jardineiro, etc. E todos, no mundo surreal da indústria da promoção do bem dos pobres e com suas imagens devidamente lavadas, serão felizes para sempre. Mas só nas campanhas publicitárias da TV. Fora da tela, a convulsão social urra.



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de abril de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Teleanálise | "O Partido da Imprensa Golpista (PIG) tornou-se aliado"

Malu Fontes

O Jornal Nacional acabou com a liderança de Marco Prisco sobre a paralisação da Polícia Militar da Bahia em seu 9º dia de greve e redefiniu radicalmente os rumos do movimento. Imediatamente após o telejornal de maior audiência do país, em sua edição da noite de quarta-feira, veicular gravações de ligações grampeadas, obtidas com exclusividade via governo, ressalte-se, entre o líder da greve, Marco Prisco, e outras lideranças do interior do Estado articulando o fechamento de rodovias baianas, e de policiais do Rio de Janeiro com lideranças políticas cariocas sobre a estratégia de usar a greve da Bahia como mecanismo de deflagração de uma paralisação nacional, a greve, o motim, a paralisação, ou seja lá que nome seja dado ao impasse que escancarou a violência em toda a Bahia, mudou completamente de feições.


Diante do movimento em si, das suas consequências políticas (para o Governo do Estado e para a imagem da Polícia Militar da Bahia), e, sobretudo das consequências sociais, com cerca de 140 homicídios em pouco mais de uma semana, saltava aos olhos algumas avaliações de autoridades sobre o começo do desfecho na quinta-feira. Não foram nem dois nem três parlamentares e autoridades públicas a elogiar o desfecho do imbróglio e a afirmar em bom som diante dos microfones dos telejornais o quanto todas as negociações foram conduzidas com sensatez, fazendo com que tudo terminasse bem e sem derramamento de sangue (sic).


OS ‘BAIRROS MAIS...’ - Como assim, ‘sem derramamento de sangue’? Ou estão todos completamente imbuídos de um esforço político cínico de negar o que se assemelha a tons de uma chacina de grandes proporções e estão banalizando índices de violência inaceitáveis, ou a expressão derramamento de sangue só teria sido digna desse nome se o sangue fosse dos militares, dos mais favorecidos ou se desse-se em bairros de classe média? O que houve senão um oceano de sangue quando uma cidade matou em menos de uma semana mais de 14 dezenas de pessoas?


Embora os telejornais tenham veiculado e atualizado cotidianamente essa contabilidade macabra durante a greve, poucas dessas vítimas parecem ter nome, endereço, profissão. São os sempre PPPs assassinados de sempre, só que em escala aumentada durante a greve: os pretos, pobres, da periferia. Nesse contexto, também foram ilustrativas as entrevistas publicadas na Folha de S. Paulo quinta-feira, no mesmo espaço, de Fátima Mendonça, a primeira dama do estado, e de Cláudia Leitte. Não é que a sensatez estava mais presente nas falas da segunda? Para Fátima, os assassinatos foram todos nos bairros ‘mais...’. Assim mesmo, com reticências. Para o resto, ou os bairros ‘menos...’ a palavra usada foi ‘tranquilo’.


LABORATÓRIO - Diante desses números, custa a crer, mas houve uma parcela da classe média que se considera do bem, amiga da pobreza, que, sentada, abancou-se nas redes sociais e protestou contra o sensacionalismo da imprensa por divulgar números tão alarmantes, como se estes fossem inventados nas redações. Achando pouco, anunciaram que fizeram uma espécie de antropologia participativa na periferia, um laboratório, diga-se. Pegaram seus carros e anunciaram superiores que fizeram rondas, da orla ao subúrbio ferroviário, da Graça à Suburbana, e nada de anormal viram, além de muita tranquilidade, é claro.


Ô, mas para essa observação participativa ser crível, já que para essas pessoas a TV não é crível por preferir sensacionalizar, não seria mais honesto pegar um buzu na Estação da Lapa, na Estação Pirajá ou um trem no Terminal da Calçada? Sim, pois as pessoas intranquilas, assustadas, assassinadas, primeiro, não ‘passam’ de carro por esses lugares onde os antenados fizeram seus laboratórios de observação: ficam lá, moram lá; segundo, suas casas não estão assentadas sobre os trechos de fluxo do trânsito onde trafegam os carros. A população amedrontada não mora na faixa de tráfego da Suburbana, mas em ruas internas onde os observadores não entraram, em becos, vielas, casas e barracos sem muro ou proteção, a maioria com portas frágeis e não raro têm na vizinhança pequenos mas ferozes exércitos armados em guerra uns contra os outros por pontos de drogas.


PIG - O outro aspecto ilustrativo da greve foi a observação dos modos como giram as engrenagens do poder e da política partidária antes e depois de conquistarem o poder. Todo e qualquer brasileiro sabe que o Partido dos Trabalhadores construiu boa parte de sua história atuando com estardalhaço nos bastidores de greves. Na Bahia, essa foi a primeira que o partido experimentou um movimento de grandes proporções e consequências estando no lugar de vidraça. Todo e qualquer leitor bem informado também sabe que, desde que chegou ao poder, o PT e seus seguidores que pensam e agem com o fígado e transformam toda e qualquer notícia envolvendo alguém do partido em coisa pessoal, em corpo a corpo desqualificador de quem fala ou escreve, dividiram a imprensa brasileira em duas categorias separadas por um grand canyon moral, ético e ideológico: a imprensa progressista, santa, ética, de um lado e o PIG, o partido da imprensa golpista, do outro, com os diabos que manipulam informações e só publicam mentiras para desestabilizar as lideranças petistas. Sim, os bastiões do PIG para quem divide a imprensa sob essa clivagem são a revista Veja e a Rede Globo de Televisão e, nesse contexto, o Jornal Nacional é tido como o legítimo filho do diabo.


É ou não é ironia que, tendo em mãos a nitroglicerina que eram as gravações feitas via grampos autorizados pela Justiça nas quais as lideranças da paralisação da Polícia na Bahia articulam o fechamento de rodovias, a inteligência dos órgãos de segurança de um governo do PT tenha preferido entregar de bandeja o furo nacional justamente para o mais autêntico dos produtos, tido como o filho legítimo do PIG? Nos bastidores das notícias, a emissora do bispo, e mais ainda os blogueiros bem abençoados chamados de progressistas, devem ter se sentido feridos n’alma com essa traição. Ou seja, audiência é audiência e desde que o PIG possa ser transformado em um baita aliado para tirar governos ditos de esquerda do desconfortabilíssimo lugar de vidraça, nos unamos a ele. Mas que a pergunta é válida, ah é: se a Globo é tão amaldiçoada pela esquerda, que chega à patetice de viver pregando ‘Um dia sem Globo’ nas redes sociais, por que justo a ela foi dada a primazia e o privilégio do furo das conversas grampeadas de Marco Prisco? Democratização da informação, entrevista coletiva, mesmo sob embargo de algumas horas que fosse... Para quê, se o que se quer mesmo é a audiência segura?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 12 de Fevereiro de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 17 de dezembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Senta lá, Negalora"


As repercussões rasas e descartáveis que sucederam alguns episódios midiáticos recentes ocorridos na Bahia, como o caso mulher ketchup, o projeto de lei que propõe impedir o governo baiano de contratar, com recursos públicos, bandas de pagode cujo repertório seja ofensivo às mulheres, a suposta relação entre os shows promovidos na praia por programas populares de TV e os arrastões realizados em locais próximos à festa e, mais recentemente, o bafafá em torno da estética e da nomenclatura Negalora, adotada por Cláudia Leitte, sob a chancela de Carlinhos Brown, não passam de mais do mesmo, de fumaça sem fogo.
Negalora. Foto: divulgação
PIN UP - Cláudia Leitte em si já é um fenômeno midiático no mínimo difícil de ser enquadrado. É um produto do business fonográfico, construído passo a passo diante dos holofotes, desde os primeiros passos públicos, como a Lolita da banda Babado Novo. Uma década depois, muito investimento em marketing e um processo poderoso de agenciamento da aparência e da carreira a transformaram em um fenômeno polvo. Pouco se fala do seu talento musical. As informações que saltam aos olhos sobre seu estrelato centram-se nas referências celebratórias à sua beleza e ao seu vigor corporal de uma Barbie contorcionista de palco, à sua força atual de mascate publicitário que só anuncia menos coisas à venda que Ivete Sangalo, à sua imagem de pin up gostosa de calendário.
Ao mesmo tempo, a cada entrevista, ela própria ressalta com tintas fortes os valores tradicionais da maternidade, da família e da religião. Numa frase sim e na outra também cita a família, Deus, Jesus e a fé. Quando se trata de valores morais, chega a resvalar no conservadorismo, ou pelo menos assim é interpretada. Já chegou a ser execrada nas redes sociais por grupos gays, que a acusavam de homofobia por ter dito numa entrevista que preferia que seu filho fosse macho. Nos últimos dias, Cláudia Leitte voltou a ser alvo de uma saraivada de críticas por ter se transformado na personagem Negalora, batizada por Carlinhos Brown.
NEGUINHA - Com outdoors espalhados por toda Salvador estampando fotos em que a cantora aparece mesclada, com um lado do rosto loiro e outro negro, batizando um show acústico e a gravação de um DVD batizados de Negalora, Cláudia Leitte meteu a imagem na cumbuca da reação irritada das diferentes tendências do movimento negro. Se os termômetros adotados para avaliar a reação da opinião pública forem as redes sociais, a ideia que se tem é a de que o neologismo tornado alcunha de Cláudia por Brown para o show foi usado como combustível para reacender a ira do movimento gay pelas declarações do passado, agora acrescidas de reações raivosas de quem acha um desrespeito à cultura e à música negra esse tipo de mimetização de cantoras brancas que adotam o mantra ‘eu sou neguinha’.
ARQUIBANCADA - Vale ressaltar, no entanto, que a reação contra Cláudia Leitte deve esconder mais restrições estéticas do que parece fazer crer a superfície das falas. Para bom entendedor, é claro que o barulho não se trata apenas de uma condenação ao fato de se tratar de uma branca invocando referências negras, e sim a um não reconhecimento, na performance da cantora, por boa parte do público que se afina à musicalidade afro, dessas referências reivindicadas pela Negalora. Se o nome do que cobram da moça é talento, que digam. No entanto, em tempos de politicamente correto, além de temer dar nome às coisas, soa muito mais ‘do bem’ aliar-se em defesa de causas políticas e sociais. Não demora e aparece um ação judicial mandando a moça limpar a maquiagem do lado negro da foto.
Não fosse isso, então, o que explica o fato de Daniela Mercury, e nem faz tanto tempo assim, ter se autodenominado como a neguinha mais branquinha da Bahia, na época em que O Canto da Cidade tornou-se praticamente o hino de Salvador? Se houve reação semelhante, onde está registrada a repercussão disso? O fato é que, sobretudo em Salvador, há diante de Ivete Sangalo, Cláudia Leitte e Daniela Mercury um público de súditos que se comporta como uma arquibancada do Ba-Vi. E nessa guerra de torcidas, Daniela Mercury é que fica melhor na fita quando se trata dos gays e dos defensores da preservação da cultura negra.
SENTA - Mas, independentemente das razões que legitimam a aceitação da neguinha de Daniela e a reação à Negalora de Cláudia Leitte, não deixa de ser irônica a ira do tipo purpurina de alguns diante de embates dessa natureza. Há falas na imprensa e sobretudo em artigos e pontos de vista em circulação nas redes sociais que, se lidas desatentamente, fazem acreditar que há fronteiras culturais da boa e da má música, da legítima e da ilegítima e que devem ser respeitadas como sei, como se a geléia geral da indústria cultural e da cultura de massa há décadas já não tivesse passado um trator por cima de quaisquer filtros autorizadores quando a questão é dizer quem pode ou não pode cantar isso ou aquilo, assim e assado.
Onde está essa pureza cultural com fronteiras que não podem ser ultrapassadas sob o risco de o infrator ser acusado de compurscar e macular áreas intocáveis e sacralizadas dessa e daquela cultura? É tudo pastiche e assim será. No chão da arte, o restinho de sagrado que resta é o talento de poucos, coisa que importa cada vez a menos gente. Se há quem acredite numa ainda pureza cultural que autoriza uns e cospe em outros, Senta lá, Cláudia.

Malu Fontes, professora e jornalista
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 18 de dezembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 19 de novembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "O bom selvagem e o maus civilizados"

Malu Fontes, professora e jornalista
Durante a semana, a televisão mal falou de outra coisa que não fosse a prisão de Nem, o chefe do tráfico na favela carioca da Rocinha. Sim, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, continuou no pau de arara das denúncias, mas como se trata do sétimo ministro com esse roteiro, o telespectador já sabe mais ou menos como esse tipo de novela deve acabar e preferiu migrar com toda a sua atenção para Nem e a Rocinha. Todo o roteiro da prisão de Nem e a seguida operação de invasão dos órgãos de segurança pública do Rio à Rocinha foram Ibope certo, pois desde Tropa de Elite, os filmes, cenas dessa natureza parecem se tratar do episódio 3 do blockbuster de José Padilha.

Para além de toda a cobertura da TV sobre a prisão de Nem, que começou com um episódio mais que novelesco envolvendo um carrão preto ocupado por homens que se diziam do Consulado da República do Congo, descendo às duas da madrugada um morro no Rio de Janeiro, dois detalhes chamaram atenção: o brilho dos cachos encaracolados e negros como a asa da graúna da cabeleira de Nem (que até horas atrás a TV apresentava ao país num retrato de um malandro de cabelo aloirado de tinta), e a reação da imprensa ao telefonema afetuoso que o traficante deu para a mãe assim que chegou à Delegacia da Polícia Federal. Sim, a cabeleira negra e brilhante ao ponto que nenhum umidificador de cachos é capaz de garantir é coisa que só mulheres devem notar, mas, o que dizer do espanto com que Deus e o mundo reagiram ao pedido que o preso fez à mãe para que os filhos (sete, dois deles adotados) não faltassem às aulas apesar do ocorrido?

TESTAMENTO - A reação da audiência ao telefonema de Nem e à referência à educação dos filhos foi se transformando no que desde o início já indicava ser: as visões caricatas e maniqueístas que a intelligentsia tem de líderes do crime. Ou são monstros à imagem e semelhança de Hitler, que apenas substituem câmaras de gás por microondas de pneus em chamas, ou verdadeiros Robin Hoods com uma inteligência e visão social MUITO acima da média. A imprensa se mostra especialmente talentosa literariamente quando se trata da narrar aqui e ali os perfis da versão Robin Hood da crônica policial brasileira. Não raro, todos os males da favela são de responsabilidade do tráfico, essa entidade abstrata sem corpo, rosto e nome. Já os traficantes, os donos do pedaço, estes parecem ter um especial jeito de seduzir os formadores de opinião que deles mais se aproximam. Não raro são descritos como gentis, ajudantes de primeira hora que nada deixam faltar aos mais pobres da comunidade, donos de uma visão critica da sociedade e por aí vai.

No caso Nem, por exemplo, não foram poucas as vezes que foi descrito como um sujeito família, justo, bom pai, bom filho, que sempre andava desarmado e nunca teria matado ninguém. Como maniqueísmo nunca deu certo, a não ser para alguns poucos e raros personagens que tiveram a sorte de pertencer ao elenco do Velho Testamento, falta alguma coisa que ligue os pontos dessa história de violência recente na Rocinha, já que Nem era esse menino tão fofo, quando de perto. Se ele era o chefe, quem ordenava as mortes das pessoas cujas ossadas foram achadas pela Polícia na ocupação da Rocinha? Aliás, relações públicas são tudo na vida política. O fenômeno das UPPs começou como invasão de morro pela polícia, evoluiu para ocupação de área a serem pacificadas e hoje atende, segundo os governantes, como Libertação de Comunidades Conflagradas. Oui.

Quanto à visão terna de Nem como o menino desarmado, é claro que ele não precisaria se dar ao trabalho de andar armado. Afinal, para que servia o exército de homens comandados por ele que lhe davam proteção armada dia sim e noite também, em qualquer movimento que fizesse e até mesmo enquanto dormia? Sobre nunca ter matado ninguém, quem duvida? O que não lhe faltavam eram matadores que cumprissem ordens. Comandar uma área com 70 mil moradores onde a Polícia sequer podia pensar em subir para não por seus homens em risco sem ter fama de matar gente soa quase risível. Matar é coisa feia. Mandar? Talvez nem tanto, né?

ABUSADO - O caso Nem e a forma como alguns coleguinhas de imprensa o descrevem não deixa de repetir um pouco o deslumbramento de alguns meninos e meninas bem nascidos que vivem nas redações: acreditam mais em Robin Hood do que deveriam e esquecem de dar às versões de carne e osso do personagem um tantinho de humanidade. Ninguém é tão bom ou tão mau. Seja Nem, Paulo Maluf ou João das Couves, são homens sob as peles que habitam e toda a sorte de contradições. Já foram ditas coisas elogiosas sobre facetas de lideranças célebres do crime, como Marcinho VP (não o Nepomuceno, que está preso e vivo, mas o morto, que dá nome ao livro Abusado, de Caco Barcelos) e Marcola, do PCC paulista. Deste último já se disse que domina mais os clássicos da literatura mundial do que toda a Academia Brasileira de Letras reunida. Na hora que um deles mata um sujeito errado, como fez Elias Maluco com Tim Lopes, aí, o jornalismo-alice arregala os olhos.

Escrever frases mezzo deslumbradas sobre o caráter humano de Nem, não é outra coisa senão uma forma bonitinha de manifestar preconceito de classe. Basta um sujeito com ficha criminal saber dizer uma frase com sujeito, verbo e predicado para ser considerado um samaritano em potencial. Há quem pense que bandido concreto é feio, sem dentes, vive com uma bazuca no ombro e mata pessoalmente uma dúzia por mês. Essa é a visão distorcida de quem acha que Nem é o bom selvagem porque quer educar os filhos e que pais de classe média que negligenciam a educação como valor são os maus civilizados. Sim, traficantes podem ser pais muito zelosos. Pais honestos podem ser negligentes com educação e há, no Congresso, parlamentares que fizeram e fazem muito mais mal ao Brasil do que Nem fez em sua breve carreira. Mas nem por isso, nenhum do trio deve ser condenado à morte ou guindado à condição de herói. 

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 21 de novembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 6 de novembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Cor de rosa para quem?"

Malu Fontes, professora e jornalista
Se até bem pouco tempo o câncer era uma doença cujo nome jamais se ousava pronunciar, a verdade é que hoje se perdeu o medo, se não da doença, pelo menos da palavra. Recentemente, todos os telejornais têm falado e muito da doença. Casos de personalidades e autoridades têm contribuído incessantemente para que o assunto tenha passado a ser abordado sem o tom de estigma que até bem pouco tempo marcava a patologia. No campo da política brasileira, os casos emblemáticos do ex-vice presidente José de Alencar e da presidente Dilma Roussef serviram como última fronteira para a abordagem sem tabus pela imprensa, mesmo porque o câncer que Dilma enfrentou tornou-se, de forma direta e indireta, assunto até mesmo de campanha eleitoral. 


Nos últimos meses, os casos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, do ator Reinaldo Gianecchini e a morte de Steve Jobs ocuparam páginas e páginas, telas e telas na imprensa. Boa parte do mundo, aliás, só descobriu que tinha um pâncreas quando o mago da Apple morreu com um câncer no órgão. Entretanto, foi com o diagnóstico do câncer de laringe do ex-presidente Lula que o assunto foi parar nos assuntos mais citados na imprensa e mais comentado nas redes sociais. Como todo bom assunto que hoje se preza, o diagnóstico do presidente ganhou fertilidade e amplitude máxima de comentários foi mesmo nas redes sociais, onde a censura é frouxa ou inexistente e onde ninguém se sente constrangido de mostrar o pior de si quando se trata de manifestar as paixões e os ódios pessoais.


PIADAS - Sim, o diagnóstico de Lula foi imediatamente transformado em cobertura nacional por parte da imprensa e na mesma velocidade e escala foi transformado em uma série de piadas de muito mau gosto, parodiando as campanhas de advertência do Ministério da Saúde e transformou-se também em briga política entre os aficcionados contra e a favor de Lula, em torno de uma suposta incoerência ou contradição do ex-presidente, que sempre elogiou o Sistema Único de Saúde, mas que na hora em que a saúde lhe fez falta correu para um dos melhores e mais caros hospitais privados do país.


Na esteira e na histeria dos ataques feitos ao fato de Lula se tratar no Hospital paulistano Sírio Libanês, não faltaram também as lembranças, por parte da imprensa, de que o ex-vice-presidente José Alencar, embora tenha virado nome de um centro de tratamento público de câncer em São Paulo, em vida, na sua hercúlea luta contra a doença, nunca colocou o pé em um serviço público de oncologia. Alencar, assim como qualquer autoridade ou homem de sua posição sócio-econômica (um dos empresários mais ricos do Brasil), sempre teve à sua disposição ao longo das 17 cirurgias a que se submeteu, entre 1997 e 2011, não apenas os melhores hospitais e serviços privados de oncologia no Brasil, mas também os melhores e mais caros centros de excelência de tratamento da doença no exterior. 


IGREJINHA - No contexto da repercussão do diagnóstico da doença do ex-presidente na imprensa, na televisão, e, sobretudo, diante no circuito extra-imprensa, representado pelas redes sociais quanto a alegada incoerência de Lula ao recorrer aos serviços sofisticados e ágeis de um hospital privado e não ao SUS, uma coincidência merece ser lembrada. Durante todo o mês de outubro, a televisão veiculou, em todo o País, a campanha Outubro Rosa, que consistia em convidar de modo extremamente carinhoso e acolhedor todas as mulheres brasileiras a irem a um serviço médico fazer uma mamografia para prevenir o câncer de mama.



Até aí, tudo lindo. Mais lindas ainda eram as matérias Brasil afora mostrando determinados pontos turísticos de cidades do Oiapoque ao Chuí iluminados de rosa, do Cristo Redentor à torre da igrejinha de cidades onde o vento faz a curva, passando pelas esculturas rechonchudas de Eliana Kertesz, as Meninas do Brasil, em Ondina, Salvador. Mas, assim como nos elogios de Lula à eficiência do SUS, será que, no mantra midiático do Outubro Rosa, não faltou dizer a todas as mulheres que decidem, ou pior, que precisam fazer uma mamografia, onde estavam os serviços públicos cor de rosa onde elas encontrariam um mamógrafo funcionando e um mastologista para atendê-las e, se fosse o caso, para tratá-las com a celeridade que a doença exige? Para quais mulheres brasileiras havia mesmo esse outubro cor de rosa que permitisse aceitar o convite bonitinho, encampado por atrizes, cantoras e primeiras-damas bem intencionadas, para cuidar da prevenção da saúde, fazendo uma mamografia? Faltou dar o endereço do serviço público onde fazer o exame. Para driblar o câncer, é necessário muito mais que campanhas publicitárias coloridas e boas trilhas sonoras.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 06 de novembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 1 de outubro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "É disso que o povo gosta?"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Com a popularização da Internet e, sobretudo, com o sucesso das redes sociais, hoje os telejornais têm muito mais possibilidades de mensurar o quanto determinados temas abordados sob a forma de notícia caem ou não no gosto do telespectador. Se antes da febre das redes sociais já se falava em notícias de interesse público (aquelas que se relacionam a fatos que dizem respeito à vida de todos os cidadãos) e notícias do interesse ‘do’ público (aquelas que dizem respeito à vida das celebridades e a fait divers e que só são veiculadas para inflar a audiência), hoje pode-se dizer que há um terceiro fenômeno em curso: as notícias de interesse público ou interesse ‘do’ público que passam a fazer parte de uma terceira agenda: a agenda da audiência do público específico das redes sociais.


O fato de um tema abordado nos fóruns noticiosos tradicionais ter bombado no Twitter ou no Facebook, por exemplo, não significa necessariamente que as notícias relacionadas a ele tenham tido o mesmo nível de repercussão pública na vida social off line. A audiência das redes sociais talvez venha a adquirir uma equivalência à da televisão, mas ainda não são a mesma coisa. Há, portanto, uma agenda pública e uma agenda do público das redes sociais. Entretanto, mesmo que o conceito de audiência da televisão ainda não sirva para traduzir nos mesmos termos a audiência e repercussão nas redes sociais, é fato que as redes são, sim, um poderoso instrumento de aferição do que ganha repercussão.


SOVACO - Com as time lines das redes sociais, muito da incredulidade de parte dos telespectadores sobre as razões de algumas emissoras darem destaque a esse ou aquele tema pode, agora, encontrar algumas respostas diante do tamanho da repercussão desses nas redes. Recentemente, por exemplo, uma matéria produzida por Patrícia Nobre pela TV Bahia e exibida no Jornal Hoje em poucas horas estava nos trend topics do Twitter, comentada por milhares de pessoas no país inteiro. O tema? Esmaltes. Sim: cores da moda, dicas de conservação para não fazer bolinhas, fórmulas para durar na unha, etc. Naquele dia essa foi a matéria que mais repercussão gerou. Ou seja, enquanto muito telespectador que faz o tipo profundo deve ter achado o Ó uma matéria grandona sobre esmaltes e mulherzinhas, um exército de gente foi ao paraíso com a abordagem e a emissora teve como ficar sabendo disso.     

Um outro exemplo recente de que há muito mais razões entre as notícias que caem na boca do povo e o nível de interesse que elas possam conter do ponto de vista do interesse público foi a estrondosa repercussão adquirida pelo caso da Mulher-Ketchup, o episódio ocorrido no interior da Bahia, em Pindobaçu, em que Erenildes Aguiar Araújo, 32 anos, forjou a própria morte lambuzando-se de ketchup e posando para fotos passando-se por um cadáver com uma peixeira embaixo do sovaco. O objetivo foi dividir o cachê como o matador contratado para eliminá-la e, de sobra, divertir-se aparecendo viva para a mandante do crime, a amante de seu marido.


BELISCO - Soube-se que, em Salvador, ao dar pela primeira vez a notícia da Mulher-Ketchup, alguns âncoras de telejornais tiveram que beliscar-se com força sob a bancada para não cair na gargalhada. Do lado de cá da tela, certamente muita gente deve ter se perguntado por que tamanha bizarrice mereceria destaque no telejornal local. Menos de uma semana depois, no entanto, o caso não havia adquirido uma superdimensão apenas local, mas nacional, internacional. Foi parar na capa de portais de grandes jornais internacionais, como o Guardian, o Daily Mail e abriu a edição do Fantástico do último domingo, com direito ao envio a Pindobaçu, pela Rede Globo, do repórter de rede, o grifado José Raimundo, para entrevistar os principais personagens da trama. Como ocorre sempre que se trata da Globo, é claro que em dois tempos a produção convenceu todo mundo a falar diante das lentes globais do Fantástico, até mesmo a envergonhada mandante. Coisa rara é achar quem não aceite falar com a Globo.

A moral da história é que, como veículos comerciais que são, eivados de todo o talento do mundo para ganhar dinheiro à custa da venda dos olhos dos telespectadores para os anunciantes, as emissoras de televisão podem até desagradar os mais exigentes ao colocar bandas rastaqueras nos estúdios dos seus  telejornais, ao eleger temas ocos para suas matérias e ao mandar um ex-jogador de futebol negro pular muro para ‘invadir’ casa de famosos do esporte. Mas que elas sabem o que estão fazendo, ah, como sabem...


O MUNDO É RASO - Os telespectadores que fazem o tipo profundo podem até fazer muxoxo com as formas das coisas televisivas como elas são, mas é bom registrar e corticalizar: “Edilson que o povo gosta, Edilson que o povo quer”. Não é, TV Bahia? Sim: a audiência pauta o conteúdo. Simples assim. E numa prova de que a superioridade está sempre na vida do vizinho, o caso Ketchup atingiu o posto de assunto mais lido do Guardian no dia em que foi veiculado. Ou seja, nem os ingleses estão tão a fim assim de profundidades. O mundo é cada vez mais dos rasos.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 02 de outubro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com



domingo, 5 de junho de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | A amnésia de Sarney e os arrancadores de unhas

Malu Fontes, professora e jornalista
Todas as pessoas envolvidas em estudos e pesquisas sobre as relações entre a sociedade e os meios de comunicação de massa conhecem a máxima segundo a qual um fato, para de fato acontecer, precisa ser veiculado na mídia, esse termo genérico em que cabe tudo: jornal, televisão, revista, site, blog, etc. Não há constrangimento nem pruridos para admitir que, na prática, essa máxima é mais verdadeira do que se desejaria admitir. Se algo não foi noticiado nos jornais nem veiculado na televisão, é como se nunca tivesse acontecido, exceto para os indivíduos diretamente envolvidos no fato.

EX-TUDO - No Brasil, talvez venha daí, dessa atribuição às mídias o papel de guardiã da memória, e não sem uma colaboração imensa dos níveis de escolaridade e letramento baixíssimos da população, a consequência mais danosa: a memória da sociedade brasileira parece ter a duração e a permanência de uma chamada na TV, de uma notícia no jornal. Como os escândalos, as tragédias e naturalmente todos os fatos se sucedem por novos e outros a cada instante e dia, nada parece sobreviver no imaginário social quando deixa de ser do interesse para as manchetes dos veículos de comunicação. E nesse aspecto é bom reiterar a natureza dos meios de informação: não lhes cabe repetir a cada dia o mesmo e já noticiado fato, pois o conceito de notícia equivale justamente a dar publicização ao que ainda não foi dito, visto, narrado, etc. Ou seja, se a memória da sociedade exige a tutela permanente da mídia para que só assim um fato político, trágico, social, econômico se mantenha vivo, há algo de muitíssimo esquisito ocorrendo com a percepção social e não apenas com os meios de comunicação.

Nesta semana um fato, mais uma vez protagonizado pelo já icônico José Sarney, uma espécie de ex-tudo neste país e que nunca deixou de ser o todo poderoso da vez, agora despachando na Presidência do Congresso, escancarou o respeito que se tem no Brasil à preservação da memória dos fatos. O presidente do Senado, longe de manifestar qualquer constrangimento com isso, inaugurou um painel com a linha do tempo e dos fatos mais importantes ocorridos naquela casa em sua história. Por alguma conveniência, os responsáveis por contar a história do Senado acharam por bem reescrever a História do Brasil e excluíram solemente o impeachment do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello. A imprensa encurralou Sarney para saber da razão de tamanho despautério e, como sempre, com sua verve de coronel maranhense laureado pelo fardão da Academia Brasileira de Letras, o senador pelo Amapá foi de uma obviedade insultante. Disse que não via problema algum no fato de o impeachment ter sido excluído: “aquilo foi um acidente, algo que já passou e que não deveria ter acontecido”. Aula magna de como apagar a História com uma dose cavalar de cinismo.
  
ARRANCAR UNHAS - A imprensa, agora com um coro fortalecido pelos blogs e pelas redes sociais, fez um escarcéu em torno da amnésia apadrinhada por Sarney e, no dia seguinte, o pai de Roseana e Zequinha voltou atrás para dizer meio que, se era para a felicidade geral dos reclamantes de plantão, ok, ele engolia em seco e faria essa concessãozinha, incluindo o tal do impeachment. E, a mirar-se no exemplo de Sarney, não demorará muito a algum adorador só do presente propor que os brasileiros esqueçam que um dia houve nesse país uma ditadura militar que torturou e matou a dar com o pau, literalmente. Há dois anos um dos maiores jornais brasileiros já escreveu que a ditadura no Brasil esteve mais para uma ditabranda. E esta semana, o sempre vociferante de raiva Lobão, cada vez mais acometido por um ódio imenso contra tudo o que diz respeito à MPB, resolveu flertar em defesa da ditadura.

Numa entrevista, o cantor defendeu a tese de que está mais do que na hora de o Brasil rever seus conceitos sobre a ditadura, pois não seria, segundo ele, admissível que o país tenha anistiado os militantes de esquerda que sequestraram um embaixador e queira agora atirar às barras dos tribunais para julgamento os militares que praticaram tortura apenas porque estes arrancaram umas unhinhas (sic). Chama Sarney, Lobão, que o senador provavelmente vai dizer que arrancar unhas foi somente um incidente, que isso já passou e que é um absurdo julgar alguém porque muita gente morreu de ‘arrancamento’ de unha em sessões de tortura e a família sequer sabe onde os corpos de seus parentes foram parar.

Pelo que os telejornais mostram todos os dias (sim, porque brasileiro parece se aproximar da sua história e da dos outros somente se a televisão e a mídia proporcionarem esse encontro), no resto do mundo todos os povos desejam não apenas rever sua história, mas, sobretudo fazer justiça contra torturadores. Para citar apenas exemplos mais próximos, tem sido assim no Chile e na Argentina. No Chile, para rever a história não a favor, mas contra os ditadores, acabaram de exumar pela segunda vez o corpo de Salvador Allende, o presidente morto no Palácio de La Moneda durante o golpe de estado dado pelo general Augusto Pinochet.  Durante a semana, o mundo acompanhou o périplo do general torturador sérvio levado para julgamento na corte internacional na Holanda. Enquanto isso, aqui a história é apagada sob as benesses de um dos homens mais poderosos da República, amadíssimo, na época, pelos arrancadores de unhas, e um roqueiro rebelde, pop e moderninho se perfila voluntariamente se não defensor, mas como atenuador da prática da tortura. Brasil, esta é a tua cara.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 05 de junho de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com





domingo, 22 de maio de 2011

Teleanálise | "O caseiro, o ministro e seus dinheiros"

Malu Fontes

Malu Fontes, professora e jornalista
Dois pesos e duas medidas. Assim é, e ainda será por muito tempo, a assimetria das consequências públicas a serem enfrentadas, de um lado, por aqueles cujo estatuto na vida os situa em condições privilegiadas e, de outro, por aqueles que habitam os andares de baixo da pirâmide social. O caso do enriquecimento brusco e vertiginoso do ministro da Casa Civil de Dilma Roussef, Antônio Palocci, é um caso típico de que, perante a hipocrisia social e política, os poderosos não apenas são poupados de explicar suas trajetórias suspeitas como ainda podem arriscar uns passos numa coreografia retórica permeada de arrogância do tipo ‘enriqueci em quatro anos porque fui ministro da Fazenda e ex-ministro vale muito no mercado’. E quem há de duvidar? Já caseiros e ex-caseiros não valem nada e a história do piauiense Francenildo Costa, todinha encontrável em qualquer busca no Google, está inscrita na crônica dos escândalos políticos brasileiros para sustentar essa tese.

GAROTAS – Durante os quatro últimos anos, quando exercia o mandato de deputado federal pelo PT de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda do Governo Lula, saído praticamente pelos fundos da pasta em 2006, após o então caseiro de uma mansão de Brasília (Francenildo) afirmar que por mais de dez vezes o vira freqüentar a casa junto com lobistas, políticos, empresários e garotas de programa, em torno de malas de dinheiro, negociações político-econômicas e uísque a go go, ganhou uma dinheirama e tanto. O assunto chegou, primeiro, na manchete da Folha de S. Paulo de domingo passado e, ao longo da semana, espalhou-se por todos os telejornais. As evidências dão conta da multiplicação do patrimônio do ministro Palocci, em apenas quatro anos, em 20 vezes, em relação ao que declarara ao candidatar-se a deputado. Praticamente em cash, já que efetuou o pagamento em apenas duas vezes, Palocci adquiriu durante o mandato um apartamento de R$ 6,6 milhões e um escritório por cerca de R$ 850 mil.

Ao ser questionado, pela imprensa e pela oposição, sobre como conseguiu enriquecer tão rápido em tão pouco tempo, Palocci estrilou, os companheiros também e até a sisuda e tida como rígida presidente Dilma fez um primeiro ensaio de troça com a opinião pública: ‘eu e o ministro estamos saudáveis’. Ela, após um acometimento de pneumonia e ele, após ter seu fermentado patrimônio recente divulgado. Diante da justificativa de Palocci, de que adquirira os recursos fazendo consultoria (enquanto exercia o mandato de deputado federal encerrado no ano passado) a empresas privadas e que ex-ministro da Fazenda vale muito no mercado, no governo e nos bastidores do PT todos foram unânimes em bater o pé afirmando que, mais do que isso, o ministro não tem obrigação nenhuma de explicar. Para quais empresas prestou consultoria, em que campo e por quais honorários, essas são, segundo o governo, informações que não interessam a ninguém.

CACHÊ - Ok. Não se trata aqui de propor sessões de tortura para obrigar o ministro a confessar quem o remunerou tão bem durante o seu mandato e por quais serviços, mas tão somente de reiterar o quanto pimenta em qualquer parte do corpo dos outros é elixir aliviante. Basta comparar a importância dada pelo Governo e por altos ocupantes de cargos do primeiro escalão do Governo Lula quando o caseiro Francenildo confirmou o envolvimento do então ministro Palocci com lobistas em Brasília. Não só acharam que o dinheiro que cada um tem no banco merece ser considerado duvidosíssimo, quando não há razões claras para associá-lo a salário por trabalho reconhecido, como sequer se deram ao trabalho de perguntar a Francenildo se ele tinha algum dinheiro e como o havia conseguido. Bastou ele incomodar o todo poderoso ministro para que uma tropa de choque a serviço deste literalmente arrombasse a vida do coitado, incluindo violação de sua conta no banco, onde encontraram uns 30 contos que vinham sendo depositados entre janeiro de março de 2006 por um pai do Piauí que nunca o havia reconhecido e, naquele ano, resolvera lhe dar um cala boca financeiro.

Sim, a violação da conta do caseiro levou Palocci a sair do Governo, mas quem há de negar que quem mais perdeu com essa história foi Francenildo? Teve que se esconder durante meses em um programa de proteção à testemunha, afastar-se da mulher e do filho. Ninguém foi punido, Palocci voltou ao governo por cima da carne seca, não só na condição de parlamentar super bem votado como também, agora se sabe, como consultor ultra bem remunerado. O dinheiro achado na conta de Francenildo, via violação de sigilo bancário, uns trocados, foi logo sendo considerado pelos amigos do ministro como sinal de que deveria estar recebendo cachê da oposição para dizer o que viu.

SEXO ORAL - Entraram na conta bancária e na vida privada do pai de Francenildo, um velhote meio classe média do Piauí que havia dado uma pulada de cerca há uns 20 anos passados e tentava se redimir em segredo. Agora, diante dos milhões de Palocci, soa ofensivo aos sensíveis amigos do ministro perguntar quem o consultou a peso de ouro. Como não se explica nada, já correm soltas as versões de que o fio do novelo que deu no apartamento carérrimo nos Jardins, em São Paulo, pode começar, ou terminar, lá nas bandas de Angola, na África.

Comparando-se os modos de tratamento político dado por parte do partido do governo aos dinheiros de Palocci e aos de Francenildo, é fácil supor que, se fosse no Brasil que um chefão do mundo do poder, como o diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, forçasse uma camareira de hotel a uma sessão apressadona de sexo oral e ela se atrevesse a denunciá-lo, perigava ela, e jamais ele, ir para a cadeia. E por falar nisso, abordar suruba no apartamento do personagem de Lázaro Ramos, no novelão da oito, pode, mas referir-se à sessão de sexo oral do senhor Dominique nos telejornais não pode. Por quê?  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 22 de maio de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 15 de maio de 2011

Teleanálise: "Barba, bigode e abismos"

Malu Fontes 

Malu Fontes, jornalista e professora
Na esfera local, o fato de o governador Jaques Wagner ter vendido a uma marca de lâminas de barbear os pelos da barba e do bigode que cultivava há 30 anos obteve muito mais destaque no noticiário não apenas televisivo, mas de todas as outras mídias, do que a greve e o impasse em torno dela envolvendo os professores das universidades estaduais e o mesmo governo do barbeado em questão. E é preciso admitir que se vive em um tempo em que é assim que as coisas se movem. Ou seja, quem quer saber de milhares de alunos sem aula, de professores parados e de suas pautas de reivindicação, e, menos ainda, de que o mesmo petismo que sempre amou uma assembléia e paralisação de qualquer ‘catiguria’ agora corta o salário dos professores em greve se o governante é tão bem intencionado que sacrifica os cabelos da cara por R$ 500 mil em nome da nobreza da causa da educação? Sim, para quem não sabe, o cachê pago pelas barbas do governador irá, centavo a centavo, para o campo da educação na Bahia.

COISAS FEIAS - Na mesma semana desse feito publicitário e de marketing pessoal e político sem precedentes na história desse estado, o telespectador acordou na segunda-feira ainda sob o efeito (e por que será que repórteres de rádio e TV, aqui e alhures nunca sabem que sob não pode nunca ser sobre?) do estômago embrulhado com as imagens de mais uma das matérias denúncias do Fantástico, desta vez sobre coisas inacreditáveis que ocorrem quando o assunto é merenda escolar Brasil afora.
 
A Educação, embora sempre, no Brasil, esteja condenada aos piores tratamentos governamentais, é um tema que ocupa reiteradamente espaços mais do que generosos no noticiário televisivo. Durante toda esta semana, enquanto o Jornal da Band se transformou em um panfleto quase agressivo dando voz tão somente aos donos do agro-negócio diante da cobertura da reforma do Código Florestal no Congresso, o Jornal Nacional abriu um espaço gigantesco para os desafios da educação, em uma série de matérias especiais sobre o tema ao longo da semana.

Do mesmo modo que o marketing político sabe que a imprensa irá toda saracoteante atrás do merchandising governamental inflado pela parceria público-privada (entre o Governador da Bahia e a marca de lâminas) em nome da sacralizada causa da educação, os gestores que aparecem mal na fita em matérias já rotineiras sobre denúncias na educação também já sabem a receita de bolo para tentar safar-se das coisas feias que fazem em seus rincões. Diante de uma denúncia num telejornal, a receita é dar satisfação à referida emissora e equipe de reportagem, mesmo que no dia seguinte os alunos continuem mergulhados no mesmo abismo qualitativo e quantitativo. Fazem uma maquiagem tipo meia-sola do fato denunciado diante das câmeras e parecem acreditar que fica tudo certo. E o pior é que fica, pois, no dia seguinte, os mesmos alunos pobres e sem voz nem vez estarão tão mudos quanto sempre.

ARMENGUE - Em uma das escolas visitadas pela reportagem do Jornal Nacional, em Teresina, a Secretaria de Educação, o Governador, a Diretoria da Escola, quem sabe quem ou quem sabe todos juntos, assim que se tomou conhecimento da passagem da TV pelo local, acorreram magotes de pedreiros, carpinteiros, marceneiros, pintores e tudo o quanto é mão de obra inexistente o resto da vida para fazer um armengue de fachada nas instalações do prédio, que, na véspera, eram menos vistosas que as cavernas afegãs onde um dia acreditou-se que Bin Laden escondia-se. Beira a imoralidade com a cidadania dos alunos e professores da escola ver uma tropa de choque de operários trabalhando em função não do direito dessas pessoas de terem um lugar para estudar e trabalhar minimamente digno, mas tão somente para dar satisfação a uma emissora de TV.

Em um país em que tudo na educação pública ou é abismo ou é performance, a economia pode ir tão bem quanto a do resto do mundo, mas o povo será sempre composto por batalhões de derrotados diante de outros países onde a educação levou a sociedade para outros caminhos. O tão comemorado acesso ao consumo é formidável, mas não custa lembrar que ele pode se espatifar diante dos sinais mais encorpadinhos de volta da inflação. Já a educação de qualidade e o investimento a curto, médio e longo prazo em qualificação de mão de obra serão sempre uma receita formidável para qualquer nação sair do buraco. Aqui, não se consegue parar de jogar lixo da janela do carro, coletar o lodo coletivo depositado nas calçadas, mas as cantantes endinheiradas estão em todos os outdoors numa briga de foice exigindo que a abertura da Copa seja aqui, uma cidade que nem buzu tem. Yes, we can.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.