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domingo, 18 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Adão, Doralice e as armações de Pedrinho"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Não, isso não é o título de capítulo do livro nem da novela “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. É apenas um bom título para contemplar o corolário de espertezas toscas protagonizadas pelo recém-desabado e apeado ministro dos Transportes, Pedro Novais. Antes mesmo de assumir o Ministério do Turismo, o senhorzinho maranhense, amigo de longa data do todo poderoso José Sarney, já dava demonstrações públicas de que sua gestão seria um prato cheio para quem se dispusesse a procurar lixo na Esplanada dos Ministérios.


Assim que teve o nome indicado pelo seu padrinho político, estourou, na imprensa escrita e nos telejornais, um escândalo de alcova: o ministro, baixíssimo em estatura, com seus 1,55m, estreava no coração do poder trazendo a reboque uma festa que teria dado em um motel do Maranhão. Paga com dinheiro público, claro. Até então, achava-se que nada de mais constrangedor poderia acontecer a um homem que ultrapassara os 80 anos ostentando um daqueles casamentos solidíssimos que a alta sociedade adora citar e no alto de seu sexto mandato conquistado nas urnas do Maranhão como deputado federal.


HOMINHO - Portanto, enquanto tudo pareciam águas plácidas no Governo Dilma e somente a caladíssima ministra da Cultura, Ana de Hollanda, parecia fadada ao falatório associado a quedas em médio prazo, no tempo em que os milhões de Palocci ainda não tinham vindo às manchetes, Pedro Novais já prometia que a pasta do Turismo não teria pela frente apenas o desafio de contribuir para a arrumação da Casa para receber o público da Copa. Seu maior desafio era manter-se no cargo já tendo estreado com o nome e a reputação associada a festinhas em motel bancadas pelo contribuinte. Para uma presidente dita durona, um subordinado desses deve ser um fardo e tanto. Passados sete meses, entre quedas e quedas de outros ministros cujas permanências no governo eram tidas como certas e seguras quando do começo da gestão, estoura outro escândalo nas cercanias de “Seu” Pedrinho, desta vez envolvendo a prisão de todo o primeiro escalão do seu ministério, na Operação. O hominho, no entanto, continuava ‘apregado’ na cadeira do Turismo.


Com a queda de Novais finalmente anunciada na quarta-feira, os telejornais da semana davam conta de que, nos bastidores da Presidência da República, nas negociações entre a presidente Dilma Roussef e o cacique do PMDB, o vice-presidente da República Michel Temer, a condição imposta por Dilma era a de que, pelamordedeus, lhe apresentassem um nome cuja biografia e currículo político lhe permitissem enfrentar a primeira entrevista coletiva à imprensa ao ser indicado para o posto sem ter que passar pelo constrangimento de responder perguntas sobre atos de corrupção ou ilícitos envolvendo seu nome. Os repórteres versados nas vísceras do poder e do PMDB davam conta de que essa exigência apresentada a Temer reduzia o universo de ministeriáveis a nomes contáveis nos dedos. Sim, a coisa anda tão feia no Planalto Central que não basta a garantia expressa de que o novo ministro vá ser de uma lisura ímpar no cargo. Se trouxer um saco de roupas sujas do passado, como o de Novais, o prejuízo para o governo torna-se insuportável. A sujeira do passado não resistirá a uma manchete de jornal. E o que há de ministro tentando esconder sacos e sacos de roupas sujas acumuladas nos  invernos passados...

MOTEL E CHOFER - Foi a manchete da Folha de S. Paulo da última terça-feira que colocou uma pá de cal avassaladora sobre as armações do ministro Pedrinho. Durante nada menos que 7 anos, de 2003 a 2010, simultaneamente ao exercício do mandato de deputado federal, o ministro pagava a governanta de sua residência com o dinheiro da Câmara dos Deputados, onde a mesma era contratada como secretária parlamentar, embora passasse o dia cozinhando e cuidando do apartamento funcional do então parlamentar. Em janeiro, quando Novais tornou-se ministro, a moça, Doralice, foi exonerada e imediatamente contratada por uma empresa terceirizada que recebe um milhão e meio de reais por ano para fornecer mão de obra para o Ministério do Turismo.



Não era tudo. No dia seguinte o mesmo jornal estampava a informação de que a mulher do deputado tinha um motorista particular, Adão, também servidor da Câmara, lotado no gabinete de um outro deputado do PMDB, desde que fora transferido do gabinete de Novais, quando este saiu do Legislativo para o Ministério. Ou seja, para quem tem como dar de presente à mulher um chofer full time remunerado com dinheiro público, é fácil, fácil ser perdoado por ela por conta de uma festinha à toa num motel para onde ela não foi convidada. E talvez isso explique porque todos os andamentos da Copa estejam tão atrasados. Os nomes públicos que poderiam fazer o processo deslanchar estão é exercendo sua criatividade para fazer com que servidores públicos como Adão e Doralice possam ser introduzidos em armações que lhes permitam o bom andamento da copa, não Mundial de Futebol, mas a doméstica, a extensão de suas cozinhas. 



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 18 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 22 de maio de 2011

Teleanálise | "O caseiro, o ministro e seus dinheiros"

Malu Fontes

Malu Fontes, professora e jornalista
Dois pesos e duas medidas. Assim é, e ainda será por muito tempo, a assimetria das consequências públicas a serem enfrentadas, de um lado, por aqueles cujo estatuto na vida os situa em condições privilegiadas e, de outro, por aqueles que habitam os andares de baixo da pirâmide social. O caso do enriquecimento brusco e vertiginoso do ministro da Casa Civil de Dilma Roussef, Antônio Palocci, é um caso típico de que, perante a hipocrisia social e política, os poderosos não apenas são poupados de explicar suas trajetórias suspeitas como ainda podem arriscar uns passos numa coreografia retórica permeada de arrogância do tipo ‘enriqueci em quatro anos porque fui ministro da Fazenda e ex-ministro vale muito no mercado’. E quem há de duvidar? Já caseiros e ex-caseiros não valem nada e a história do piauiense Francenildo Costa, todinha encontrável em qualquer busca no Google, está inscrita na crônica dos escândalos políticos brasileiros para sustentar essa tese.

GAROTAS – Durante os quatro últimos anos, quando exercia o mandato de deputado federal pelo PT de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda do Governo Lula, saído praticamente pelos fundos da pasta em 2006, após o então caseiro de uma mansão de Brasília (Francenildo) afirmar que por mais de dez vezes o vira freqüentar a casa junto com lobistas, políticos, empresários e garotas de programa, em torno de malas de dinheiro, negociações político-econômicas e uísque a go go, ganhou uma dinheirama e tanto. O assunto chegou, primeiro, na manchete da Folha de S. Paulo de domingo passado e, ao longo da semana, espalhou-se por todos os telejornais. As evidências dão conta da multiplicação do patrimônio do ministro Palocci, em apenas quatro anos, em 20 vezes, em relação ao que declarara ao candidatar-se a deputado. Praticamente em cash, já que efetuou o pagamento em apenas duas vezes, Palocci adquiriu durante o mandato um apartamento de R$ 6,6 milhões e um escritório por cerca de R$ 850 mil.

Ao ser questionado, pela imprensa e pela oposição, sobre como conseguiu enriquecer tão rápido em tão pouco tempo, Palocci estrilou, os companheiros também e até a sisuda e tida como rígida presidente Dilma fez um primeiro ensaio de troça com a opinião pública: ‘eu e o ministro estamos saudáveis’. Ela, após um acometimento de pneumonia e ele, após ter seu fermentado patrimônio recente divulgado. Diante da justificativa de Palocci, de que adquirira os recursos fazendo consultoria (enquanto exercia o mandato de deputado federal encerrado no ano passado) a empresas privadas e que ex-ministro da Fazenda vale muito no mercado, no governo e nos bastidores do PT todos foram unânimes em bater o pé afirmando que, mais do que isso, o ministro não tem obrigação nenhuma de explicar. Para quais empresas prestou consultoria, em que campo e por quais honorários, essas são, segundo o governo, informações que não interessam a ninguém.

CACHÊ - Ok. Não se trata aqui de propor sessões de tortura para obrigar o ministro a confessar quem o remunerou tão bem durante o seu mandato e por quais serviços, mas tão somente de reiterar o quanto pimenta em qualquer parte do corpo dos outros é elixir aliviante. Basta comparar a importância dada pelo Governo e por altos ocupantes de cargos do primeiro escalão do Governo Lula quando o caseiro Francenildo confirmou o envolvimento do então ministro Palocci com lobistas em Brasília. Não só acharam que o dinheiro que cada um tem no banco merece ser considerado duvidosíssimo, quando não há razões claras para associá-lo a salário por trabalho reconhecido, como sequer se deram ao trabalho de perguntar a Francenildo se ele tinha algum dinheiro e como o havia conseguido. Bastou ele incomodar o todo poderoso ministro para que uma tropa de choque a serviço deste literalmente arrombasse a vida do coitado, incluindo violação de sua conta no banco, onde encontraram uns 30 contos que vinham sendo depositados entre janeiro de março de 2006 por um pai do Piauí que nunca o havia reconhecido e, naquele ano, resolvera lhe dar um cala boca financeiro.

Sim, a violação da conta do caseiro levou Palocci a sair do Governo, mas quem há de negar que quem mais perdeu com essa história foi Francenildo? Teve que se esconder durante meses em um programa de proteção à testemunha, afastar-se da mulher e do filho. Ninguém foi punido, Palocci voltou ao governo por cima da carne seca, não só na condição de parlamentar super bem votado como também, agora se sabe, como consultor ultra bem remunerado. O dinheiro achado na conta de Francenildo, via violação de sigilo bancário, uns trocados, foi logo sendo considerado pelos amigos do ministro como sinal de que deveria estar recebendo cachê da oposição para dizer o que viu.

SEXO ORAL - Entraram na conta bancária e na vida privada do pai de Francenildo, um velhote meio classe média do Piauí que havia dado uma pulada de cerca há uns 20 anos passados e tentava se redimir em segredo. Agora, diante dos milhões de Palocci, soa ofensivo aos sensíveis amigos do ministro perguntar quem o consultou a peso de ouro. Como não se explica nada, já correm soltas as versões de que o fio do novelo que deu no apartamento carérrimo nos Jardins, em São Paulo, pode começar, ou terminar, lá nas bandas de Angola, na África.

Comparando-se os modos de tratamento político dado por parte do partido do governo aos dinheiros de Palocci e aos de Francenildo, é fácil supor que, se fosse no Brasil que um chefão do mundo do poder, como o diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, forçasse uma camareira de hotel a uma sessão apressadona de sexo oral e ela se atrevesse a denunciá-lo, perigava ela, e jamais ele, ir para a cadeia. E por falar nisso, abordar suruba no apartamento do personagem de Lázaro Ramos, no novelão da oito, pode, mas referir-se à sessão de sexo oral do senhor Dominique nos telejornais não pode. Por quê?  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 22 de maio de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com