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domingo, 29 de maio de 2011

Teleanálise | "Palocci, a chantagem anti-gay e o diabo"

Malu Fontes

Malu Fontes, professora e jornalista
Embora a semana tenha começado com todos os indicadores telejornalísticos apontando para Pimenta Neves como o personagem da semana, no máximo dividindo a cena, entre os mais politizados e os defensores da causa ambiental, com a aprovação do novo Código Florestal na Câmara Federal, na primeira derrota política de Dilma Roussef, eis que as estripulias financeiras do ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, deram uma rasteira na pauta noticiosa para além dos significados da multiplicação miraculosa do patrimônio e foi parar na causa dos gays, lésbicas e simpatizantes, assumindo o protagonismo no disse-me-disse da opinião pública durante a semana. Gente de boa índole e folha corrida exótica, para dizer o mínimo, como Antony Garotinho e Jair Bolsonaro, por exemplo, foram dormir na última quarta-feira serelepes de felicidade moral e jurando amor eterno e elogios sem fim à presidente Dilma.

Em termos diretos, houve uma chantagem à qual a presidente Dilma cedeu já na primeira rodada. A bancada evangélica da Câmara dos Deputados e os conservadores que têm arrepios só em ouvir falar em homossexualidade viram na fragilidade de Palocci uma oportunidade de enxadrista para dar um xeque-mate na presidente: ou ela recuaria na distribuição do kit anti-homofobia nas escolas brasileiras, aprovado e recomendado pela Unesco, ou a tropa de choque evangélica iria para cima de Palocci, ameaçando-a com CPI, fritura, desmoralização e tudo o mais que fosse estratégia política de ataque necessária para derrubá-lo, empurrado que já está (por si mesmo).
  
ROSINHA - Para quem já tinha se virado nos 30 durante a campanha eleitoral para provar que era religiosa e cristã desde criancinha e que prometera contrita jamais enviar para o Congresso qualquer projeto propondo alteração na legislação atual sobre o aborto, Dilma foi de uma previsibilidade moral mais que óbvia: disse sim imediatamente à tropa evangélica e suspendeu as cartilhas. Dilma bem tentou ceder à chantagem com um eufemismo, anunciando que a suspensão do kit devera-se ao fato de não ter gostado dos vídeos. Ah, tá. Mas Garotinho, sim, aquele mesmo,o marido de Rosinha, não deixou a presidente falsear a verdade. Em alto e bom som anunciou com empáfia quais tinham sido as regras do jogo. Segundo ele, ou era a suspensão ou os evangélicos iriam fazer de um tudo para dificultar a vida de Palocci no Governo, mobilizando mundos e fundos no plenário e nas comissões técnicas.

Para quem assistiu ao embate com a frieza necessária para analisar o comportamento dos players do episódio, a primeira obviedade que emerge dessa negociação estranhíssima entre Dilma e os evangélicos é o fato ver a presidente de uma República laica negociar de maneira tão rápida e barata uma ação integrante de uma política pública voltada para reduzir o preconceito e a violência contra os homossexuais por um punhado de proteção a um ministro que, em sua vida pública, nem tão longa assim, já foi pego de calças curtíssimas três vezes. E desta vez com os bolsos cheios de um dinheiro que parece ter vindo de forma tão fácil e rápida quanto misteriosa.

NEGOCIATAS – A chantagem, o arranjo, enquanto negócio, literalmente, foi lucrativo para os dois lados, embora nem a presidente nem os evangélicos tenham combinado com os homossexuais a sua inclusão na negociata. A pergunta que se deve fazer a Dilma é: o que ela ganha ao desistir de algo tão caro para a causa gay, assim, de bandeja, para agradar aos evangélicos? A proteção de seu pit bull político, mais uma vez ferido moralmente de morte, um homem que lhe é mais do que necessário, uma vez que atua, no governo, como uma espécie de amortecedor de espuma entre o que resta de direita e esquerda e entre o capital/mercado e os movimentos sociais que sempre apoiaram os governos do PT. E os evangélicos, o que ganham? Ora, uma moeda valiosíssima. A pregação evangélica sem a presença do diabo em seu discurso sofreria uma baixa de valor incalculável e ninguém é ingênuo para desconhecer que a homossexualidade é uma das faces mais robustas do demo na retórica religiosa.

Nesse imbróglio todo de Palocci e seus desdobramentos, quem saiu ganhando mesmo foi a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, antes no centro de uma fritura ininterrupta. Diante dos estragos na Casa Civil, quem haveria agora de perder tempo pensando em fazer mudanças no MinC? Do outro lado, o da sociedade civil, por mais paradoxal que possa soar, quem sai ganhando em dignidade são os homossexuais: com antagonistas tão vulgares e capazes de negociatas e barganhas tão espúrias quem, sensato, há de negar que é um luxo estar do lado oposto?


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de maio de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 22 de maio de 2011

Teleanálise | "O caseiro, o ministro e seus dinheiros"

Malu Fontes

Malu Fontes, professora e jornalista
Dois pesos e duas medidas. Assim é, e ainda será por muito tempo, a assimetria das consequências públicas a serem enfrentadas, de um lado, por aqueles cujo estatuto na vida os situa em condições privilegiadas e, de outro, por aqueles que habitam os andares de baixo da pirâmide social. O caso do enriquecimento brusco e vertiginoso do ministro da Casa Civil de Dilma Roussef, Antônio Palocci, é um caso típico de que, perante a hipocrisia social e política, os poderosos não apenas são poupados de explicar suas trajetórias suspeitas como ainda podem arriscar uns passos numa coreografia retórica permeada de arrogância do tipo ‘enriqueci em quatro anos porque fui ministro da Fazenda e ex-ministro vale muito no mercado’. E quem há de duvidar? Já caseiros e ex-caseiros não valem nada e a história do piauiense Francenildo Costa, todinha encontrável em qualquer busca no Google, está inscrita na crônica dos escândalos políticos brasileiros para sustentar essa tese.

GAROTAS – Durante os quatro últimos anos, quando exercia o mandato de deputado federal pelo PT de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda do Governo Lula, saído praticamente pelos fundos da pasta em 2006, após o então caseiro de uma mansão de Brasília (Francenildo) afirmar que por mais de dez vezes o vira freqüentar a casa junto com lobistas, políticos, empresários e garotas de programa, em torno de malas de dinheiro, negociações político-econômicas e uísque a go go, ganhou uma dinheirama e tanto. O assunto chegou, primeiro, na manchete da Folha de S. Paulo de domingo passado e, ao longo da semana, espalhou-se por todos os telejornais. As evidências dão conta da multiplicação do patrimônio do ministro Palocci, em apenas quatro anos, em 20 vezes, em relação ao que declarara ao candidatar-se a deputado. Praticamente em cash, já que efetuou o pagamento em apenas duas vezes, Palocci adquiriu durante o mandato um apartamento de R$ 6,6 milhões e um escritório por cerca de R$ 850 mil.

Ao ser questionado, pela imprensa e pela oposição, sobre como conseguiu enriquecer tão rápido em tão pouco tempo, Palocci estrilou, os companheiros também e até a sisuda e tida como rígida presidente Dilma fez um primeiro ensaio de troça com a opinião pública: ‘eu e o ministro estamos saudáveis’. Ela, após um acometimento de pneumonia e ele, após ter seu fermentado patrimônio recente divulgado. Diante da justificativa de Palocci, de que adquirira os recursos fazendo consultoria (enquanto exercia o mandato de deputado federal encerrado no ano passado) a empresas privadas e que ex-ministro da Fazenda vale muito no mercado, no governo e nos bastidores do PT todos foram unânimes em bater o pé afirmando que, mais do que isso, o ministro não tem obrigação nenhuma de explicar. Para quais empresas prestou consultoria, em que campo e por quais honorários, essas são, segundo o governo, informações que não interessam a ninguém.

CACHÊ - Ok. Não se trata aqui de propor sessões de tortura para obrigar o ministro a confessar quem o remunerou tão bem durante o seu mandato e por quais serviços, mas tão somente de reiterar o quanto pimenta em qualquer parte do corpo dos outros é elixir aliviante. Basta comparar a importância dada pelo Governo e por altos ocupantes de cargos do primeiro escalão do Governo Lula quando o caseiro Francenildo confirmou o envolvimento do então ministro Palocci com lobistas em Brasília. Não só acharam que o dinheiro que cada um tem no banco merece ser considerado duvidosíssimo, quando não há razões claras para associá-lo a salário por trabalho reconhecido, como sequer se deram ao trabalho de perguntar a Francenildo se ele tinha algum dinheiro e como o havia conseguido. Bastou ele incomodar o todo poderoso ministro para que uma tropa de choque a serviço deste literalmente arrombasse a vida do coitado, incluindo violação de sua conta no banco, onde encontraram uns 30 contos que vinham sendo depositados entre janeiro de março de 2006 por um pai do Piauí que nunca o havia reconhecido e, naquele ano, resolvera lhe dar um cala boca financeiro.

Sim, a violação da conta do caseiro levou Palocci a sair do Governo, mas quem há de negar que quem mais perdeu com essa história foi Francenildo? Teve que se esconder durante meses em um programa de proteção à testemunha, afastar-se da mulher e do filho. Ninguém foi punido, Palocci voltou ao governo por cima da carne seca, não só na condição de parlamentar super bem votado como também, agora se sabe, como consultor ultra bem remunerado. O dinheiro achado na conta de Francenildo, via violação de sigilo bancário, uns trocados, foi logo sendo considerado pelos amigos do ministro como sinal de que deveria estar recebendo cachê da oposição para dizer o que viu.

SEXO ORAL - Entraram na conta bancária e na vida privada do pai de Francenildo, um velhote meio classe média do Piauí que havia dado uma pulada de cerca há uns 20 anos passados e tentava se redimir em segredo. Agora, diante dos milhões de Palocci, soa ofensivo aos sensíveis amigos do ministro perguntar quem o consultou a peso de ouro. Como não se explica nada, já correm soltas as versões de que o fio do novelo que deu no apartamento carérrimo nos Jardins, em São Paulo, pode começar, ou terminar, lá nas bandas de Angola, na África.

Comparando-se os modos de tratamento político dado por parte do partido do governo aos dinheiros de Palocci e aos de Francenildo, é fácil supor que, se fosse no Brasil que um chefão do mundo do poder, como o diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, forçasse uma camareira de hotel a uma sessão apressadona de sexo oral e ela se atrevesse a denunciá-lo, perigava ela, e jamais ele, ir para a cadeia. E por falar nisso, abordar suruba no apartamento do personagem de Lázaro Ramos, no novelão da oito, pode, mas referir-se à sessão de sexo oral do senhor Dominique nos telejornais não pode. Por quê?  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 22 de maio de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com