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sábado, 30 de junho de 2012

Teleanálise | "Urubu doméstico, cabra adestrada e galinha humana" (versão integral)

Malu Fontes


Este título é apenas uma tentativa, que já nasce frustrada, de traduzir o circo de horrores em que se tornou a televisão. E o que é pior: para tudo o que aparece de muito ruim ou muito raso, hoje, na TV brasileira, os profissionais das emissoras, devidamente emprenhados pelo ouvido pelos colegas dos departamentos comerciais e de marketing, vomitam um argumento que já vive pronto na ponta da língua: é isso o que a Classe C quer ver.

Custa a crer que nenhuma entidade tenha, até agora, se apresentado disposta a se queixar juridicamente contra esse estigma de burrice, ignorância e preguiça intelectual que vem sendo colado pelos meios de comunicação aos integrantes da nova Classe C, recentemente endinheirada. Quem é louco para ter uma ONG para chamar de sua, fica a dica, como diz a gíria: corra e crie urgente uma ONG para pedir indenização por danos morais à mídia brasileira argumentando que esta vem atribuindo de forma ostensiva e preconceituosa à classe C a condição de burrice extrema e de consumidora das piores coisas que se tem feito na indústria cultural.

CLASSE BÁRBARA - Sobre essa burrice associada pelos meios de comunicação de um modo geral à Classe C, o professor Muniz Sodré, baiano de São Gonçalo dos Campos, hoje professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos maiores intelectuais brasileiros, deu, na última segunda-feira, no centro do programa Roda Viva, da TV Cultura, uma aula sobre o assunto. Comemorando 70 anos e no auge da maturidade intelectual, questionou que Classe C é essa, inexistente da forma como vem sendo representada pela imprensa e pelas emissoras de TV, incluindo, principalmente, a teledramaturgia, que agora a adotou como protagonista, vestida de outras cores, mas se comportando sempre como uma classe bárbara.

Durante a semana, um dos programas locais de TV em Salvador realizou a fantasia de um voyeur da periferia que registrou imagens da fantasia sexual de um casal de classe média que resolveu fazer sexo de madrugada em um lugar insólito: entre os vagões de um trem na periferia da cidade. O apresentador do programa onde as imagens do ato sexual foram parar achou por bem considerar a coisa mais normal do mundo, já que empoderado por sua turba de seguidores alfabetizados exclusivamente pela mídia eletrônica sem nunca ter (podido) passar pelo livro e pela reflexão crítica, chamar a mulher da cena de galinha. Anunciando a profissão da moça, médica, ameaçava revelar sua identidade e reiterava o quanto ela estaria, a partir de agora, desmoralizada.
  
GALINHA - Numa cidade onde a média de assassinatos por fim de semana só raramente não ultrapassa as duas dezenas, crime bárbaro mesmo, para uma mulher, parece ser fazer sexo com seu companheiro num lugar inóspito. Sim, só ela, nas palavras repetidas na TV, está desmoralizada, “porque ele é homem” (sic). Diante disso, é mesmo de se estranhar que oito bárbaros espanquem com paralelepípedos na cabeça (até a morte de um) dois irmãos gêmeos que andavam abraçados numa rua em Camaçari (BA)? O julgamento dos assassinos diante de dois homens abraçados na rua é semelhante ao da TV diante de uma mulher flagrada por uma câmera fazendo sexo com seu companheiro. Para os primeiros, eles devem apanhar porque são ‘mulherzinhas’ (sic). Para a segunda, a mulher deve ser desmoralizada porque ‘é uma galinha’ (sic).

Em tempos caleidoscópicos em que marchas feministas se auto-batizam de marcha das vadias, lésbicas protestam mostrado os peitos e ficam furiosas por serem rotuladas de musas nas manchetes e em que, pela primeira vez, uma mulher conduz o país e é elogiada pela firmeza de opiniões e gestão, é uma volta à idade média e à inquisição ver num programa de TV uma campanha de desmoralização de uma mulher por ter sido flagrada por uma câmera escondida fazendo sexo numa estação de trem. E o medievalismo está menos na reação diante da cena e mais no fato de se defender a tese de que a desmoralizada é ela, porque, como creem os medievalistas, ‘em homem não pega nada’. Essa tese foi dita, mal dita e reverberada ao vivo, na TV, e reiterada nas redes sociais pela audiência bombada dos alfabetizados televisuais.        
        
Nesse contexto, em que mulheres são xingadas de galinhas, reclamar do quê se vez ou outra o telejornal concorrente lança mão de atrações animais reais? Diante de uma mulher sendo chamada de galinha pela sanha moralista de uma turba ignara, porque fez com seu corpo e seu companheiro o que bem quis, como reclamar se um dia o principal programa local do telejornalismo classicão exibe um urubu tornado bicho doméstico ultra-mega-super amigo de um surdo mudo lavador de carros da periferia e no outro uma cabra que mora e se comporta como cachorros e é adestrada como tal por um profissional que anuncia para os próximos dias a presença de um porco com as mesmas habilidades?
          
TETAS - Para fechar com chave de ouro a descrição freak da programação da TV, vista neste texto a partir da ótica de Salvador, destaca-se a farra publicitária da Prefeitura de Salvador com a exibição, sempre em horário nobre, quando o custo de cada segundo é altíssimo, com um jingle que, estivesse Chacrinha vivo, deveria ser premiado com o Troféu Abacaxi. Sem obras para mostrar e ancorado em um slogan torto que nomeia Salvador como ‘Cidade Sede do Trabalho’, o anúncio institucional repete o versinho tolo ‘eu amo amar Salvador’. Quem vive na cidade sabe que, se há coisas que os gestores dessa cidade não fazem, é trabalhar. Sabe também que o verso seria melhor tradutor das coisas se o verbo amar usado de forma falsa e melosa fosse substituído por mamar. Ah, quão generosas para os gestores têm sido as tetas de Salvador...

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 01 de julho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 16 de junho de 2012

Teleanálise | "Jornalismo prescritivo: dicas para não morrer nunca"

Malu Fontes

Alguns dos espaços antes ocupados, no jornalismo impresso e no telejornalismo, por um subgênero chamado de jornalismo de serviço, serviam para informar aos leitores e telespectadores o que abriria e fecharia nos feriados, cotação de preços de produtos alimentícios básicos em períodos especiais ou estações, onde encontrar atendimento para uma série de demandas sociais, dicas de emprego e de outras oportunidades, foram, aos poucos sendo substituídos pela tendência da auto-ajuda. Nos últimos anos tal tendência virou febre e a televisão embarcou nessa onda sem nenhum comedimento.

Das bancas de revistas, aos jornais impressos e nos programas de TV matutinos e vespertinos é impossível contar a quantidade de produtos voltados para dizer às pessoas como elas devem viver, comer, dormir, fazer sexo. Enfim, para qualquer ponto que se olhe da indústria cultural há um texto, um apresentador, um especialista ou, na maioria das vezes, um picareta de plantão na televisão, dizendo o que as pessoas devem fazer para serem felizes e viverem bem todos os dias da vida. O fenômeno é tão alarmante que basta ler, ouvir ou assistir as falas desses conselheiros de plantão, personais de tudo, para deduzir que o enunciado dos seus discursos, no conjunto, não diz outra coisa senão: se vocês fizerem tudo o que a gente manda, comerem tudo o que a gente aconselha, fizerem os exercícios certos, usarem os produtos que recomendamos, nunca morrerão, pois as causas da morte ou os riscos de esta acontecer desaparecerão de suas vidas.

VASSOURA - A televisão aberta vive hoje uma febre em suas grades de um gênero que pode ser chamado ironicamente de telejornalismo prescritivo, caracterizado como um discurso de papagaio treinado que repete sem parar tudo o que o cidadão deve fazer: de quanto em quanto tempo deve trocar os travesseiros e por quais para não ser acometido de síndromes alérgicas irreversíveis a como pegar direito na vassoura e manejá-la para limpar a casa sem que a coluna vertebral um dia se desmonte e para, de quebra, perca-se algumas calorias e ganhe-se massa muscular. Sim, a faxina de casa é apresentada à dona de casa como uma irresistível forma de exercitar o corpo. Desde que seja feita, é claro, com muito prazer e com movimentos mais articulados e coreografados diante da vassoura, do balde d’água e do pano de chão do que os de um corpo de baile de um grupo de dança premiado por suas coreografias.

Se o Fantástico, no quadro Medida Certa, já colocou seus apresentadores, Zeca Camargo e Renata Ceribelli a fazer diante do público todos os esforços do mundo para ensinarem aos telespectadores como entrar em forma, agora é a vez de ensinar a mesma coisa às crianças. Recrutou algumas, todas gordinhas, exceto um garoto, para fazer o mesmo no Medidinha Certa, ensinando-os (e aos pais) a comer e ter um corpo bom. No mesmo Fantástico, não faz muito tempo o Doutor Bactéria ensinava o tempo certo para trocar a esponja de lavar pratos. Mas se todo programa de TV que se preze hoje tenha embutido em seu formato um quadro dizendo o que alguém deve fazer e o que evitar, o prêmio vip da categoria fica com o global matinal Bem Estar. No programa se aprende de tudo. É o formato mais redondo do que já se pode chamar de jornalismo prescritivo, um jornalismo que tem como mote prescrever receitas cotidianas de como viver da maneira certa.     

VIVARINA - Assim como há algum tempo todo mundo se perguntava se as facas Ginsu (anunciadas como capazes de cortar até pedra) cortariam as meias Vivarina (uma meia fina feminina à prova de qualquer dano, de unha de gato a escoriações em chão árido), hoje já se pode perguntar do que morrerão as pessoas se elas cumprirem todas as prescrições que os especialistas de plantão desfiam nos programas de TV. Todas as doenças parecem ser passíveis de serem evitadas e até mesmo a violência parece ser coisa da ordem da escolha das vítimas. Rodrigo Pimentel, o Capitão Nascimento de carne e osso, está todos os dias na Globo ensinando todos como fazer para evitar assalto e repetindo pela enésima vez como uma mulher deve carregar uma bolsa para que esta não seja levada pelo ladrão.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 17 de junho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 19 de maio de 2012

Teleanálise | "A auréola de Carolina e os escravos do Brasil"

Malu Fontes

Muitas vezes as matérias jornalísticas exibidas na televisão revelam muito mais sobre o país e seus problemas por aquilo que escondem do que por aquilo que abordam e revelam abertamente. Durante a semana, três reportagens exibidas em diferentes telejornais são exemplos claros do quanto é possível informar sem informar. Tudo bem que seria exagero e radicalismo dizer que boa parte das matérias que podem ser caracterizadas como tais mais desinformam que informam. Não é verdade. Mas não se pode silenciar que estas deixam o telespectador desamparado quanto a instrumentos críticos que lhes permitam refletir melhor e mais criticamente sobre aquele assunto abordado.


As três reportagens, exibidas em dias diferentes e em diferentes telejornais. A primeira: toda a operação de cuidados e investimentos necessários adotados pelos produtores de flores da cidade paulista de Holambra, o principal pólo nacional de floricultura. Em datas comemorativas como o dia das mães e dos namorados, centenas de caminhões de grande porte e cheios de triques triques, como refrigeração na medida e suspensões que ultrapassem a perfeição mecânica, saem de Holambra e cruzam o país em centenas, milhares de quilômetros, para entregar flores perfeitas ao mercado nacional.


NO LOMBO - Se isso não leva o preço das flores para a estratosfera? Não se toca no assunto. Para que estragar assunto tão belo? Mas isso não é o mais importante desse exemplo: o lobby das grandes montadoras de automóveis na condição de anunciantes de TV é tão poderoso que ninguém nunca discute a sério que os custos de Holambra valem para tudo o que o brasileiro consome. Carne, peixe, grãos, cruzam o país no lombo caríssimo de caminhões. Enquanto isso, a construção de uma malha ferroviária nunca é pauta nem agenda política de nenhum programa jornalístico, de nenhum candidato a nada ou eleito para o que quer que seja. Quem se importa? As montadoras precisam vender seus caminhões, sustentando a lógica do transporte lento, caro e ineficiente que só serve para encarecer a vida e alimentar a eterna corrupção dos reparos constantes das estradas esfoladas por tanta carga pesada.

A segunda matéria: apenas poucas horas após a identificação dos hackers sebosinhos que revelaram ao país o tamanho e a cor da auréola dos peitos de Carolina Dieckmann na web, o Congresso nacional acudiu correndo e aprovou no ritmo the flash o projeto que circulava na casa há teeeeempos tornando crime invasão de computadores, violação de senhas, obtenção de dados sem autorização, a ação de hackers, a clonagem de cartões de crédito ou débito, enfim, os cybercrimes. Não, não estavam querendo ser manchete nos produtos jornalísticos nem serem oportunistas ao solidarizar-se com uma famosa global. Foi coincidência. Se correram assim, ágeis como coelhos, certamente foi pensando no bem comum do cidadão brasileiro.


BCHOS-PREGUIÇA - Mas a informação sobre a reação rápida dos deputados diante das vergonhas expostas de graça e sem fotoshop de Mrs. Dieckmann ainda diz muito pouco sobre os deputados se analisada jornalisticamente isolada. Ganha em cores e profundidade ideológica do tipo de parlamentares comprometidos que temos é quando esta mesma informação é contrastada com a terceira matéria que ilustra este texto. Na mesma semana, os mesmos deputados tiraram os seus da reta quando foram conclamados a votar o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) do Trabalho Escravo. A pressão da bancada ruralista não permitiu, até agora, após várias tentativas, que a PEC fosse votada. Se aprovada, estabelece a pena de perda da propriedade como punição para quem mantém trabalhadores em regime de escravidão ou em condição degradante.

Sim, está correto transformar em crime o cybercrime. Mas por que a exposição das vergonhas de uma celebridade da emissora mais poderosa do país leva os parlamentares a correrem em disparada para ficar bem na fita e aprovam em tempo recorde uma lei e, ao mesmo tempo, estes mesmos deputados, tornam-se bichos-preguiça retardatários, letárgicos quando se trata de aprovar lei que protege gente escravizada em 2012? Talvez nem fosse preciso responder que trocentos deputados e senadores que não tomaram conhecimento da Abolição, volta e meia são acusados de manter mão de obra escrava em seus latifúndios no Brasil profundo. Mas já que entre as vítimas não está nenhuma Carolina Dieckmann, quem se importa? Nem a imprensa, sobretudo o telejornalismo, cuja cobertura sobre a eterna recusa dos nobres parlamentares de votarem (e aprovarem, se é que vão fazê-lo) da PEC do trabalho escravo foi menos que pífia.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 20 de maio de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com


sábado, 12 de maio de 2012

Teleanálise | "O ovo ou a galinha?"

Malu Fontes

Com a disseminação das chamadas mídias pós-massivas, ou seja, os tablets, as mensagens eletrônicas, as informações circulantes nos smartphones, as imagens capturadas por câmeras onipresentes de celulares ou por sistemas públicos e privados de vigilância, entre tantas outras modalidades de tráfego de informação, a cada dia redefine-se o conceito de privacidade, para se continuar sem saber mais o que é isso. A atriz Carolina Dieckmann e suas fotos nuas para consumo do casal que o diga. Ela é apenas o caso mais recente.


O conceito de privacidade, e também o de violação desta, vêm se reconfigurando com as novas mídias. Crédito: socialtimes.com
RETO - Durante a semana, uma outra discussão sobre privacidade e ética chamou muito menos atenção na TV do que o caso Dieckmann, por razões óbvias, mas teve um potencial, para quem estivesse disposto a isso, é claro, muito maior para se fazer pensar no direito à privacidade e no quanto ela vale quando se trata de um cidadão comum. Uma equipe médica do centro cirúrgico do Hospital Universitário de Londrina filmou com celulares e divulgou na rede a cirurgia em um homem para a retirada de um peixe que entrou em seu intestino pelo reto.

O teor com que as abordagens jornalísticas trataram do tema, colocando a opinião de advogados, autoridades em ética e representantes do Conselho Federal de Medicina, leva a uma pergunta sem respostas: até que ponto a repercussão dada pelos grandes veículos de comunicação de massa, como a televisão e seus principais telejornais nacionais e os jornais impressos de maior circulação no país contribui para inibir que atos antiéticos desta natureza sejam evitados ou para que sejam inflacionados via web?

MAL LAVADO - A exposição triplamente traumática a que o paciente foi submetido (causada pelo incidente em si, pela inclusão das imagens da cirurgia na Internet e pela repercussão posterior em grande escala nos telejornais e jornais nacionais), leva à tese do que veio primeiro, se o ovo ou a galinha? Ao dar ampla repercussão a fatos desta natureza, a imprensa convencional não está fazendo as vezes do sujo que fala do mal lavado? Não está contribuindo, ao exibir as imagens, para acentuar o dano ético e moral cometido originalmente pela equipe médica que registrou tais imagens e as inseriu na internet?

A co-responsabilização dos meios de imprensa tradicionais, ao lado dos médicos acusados de cometerem um crime contra a dignidade do paciente, parece se escancarar quando, por exemplo, um telejornal expõe em rede nacional partes dessas mesmas imagens, chamadas de indignas pelos âncoras. A falta de ética não deveria estar tão somente na origem primeira da circulação, mas também na continuidade da disseminação, na decisão editorial dos profissionais de imprensa que a fazem chegar, inclusive, a rincões aonde jamais chegaria apenas via web.   

URUBUS - Nesse caso específico do Paraná, para além dos efeitos emocionais causados no paciente e em sua família pela repercussão nos veículos de imprensa e da presença ad infinitum na rede, já que até mesmo o caríssimo advogado Kakay que atende de Demóstenes Torres a Carolina Dieckmann não conseguiu retirar as fotos da atriz da web, as expectativas voltam-se para o Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional do Paraná. Somente com a punição de atitudes desta natureza, cometidas por parte de profissionais da medicina, e, sobretudo em um contexto de Hospital Universitário, ou seja, um hospital escola, é possível ter alguma garantia que a intimidade de pacientes em momentos máximos de fragilidade humana não se transforme em atração circense. Já não bastam os pseudojornalistas travestidos de urubus munidos de câmeras todo o tempo sobrevoando os corpos de gente pobre?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 13 de maio de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 7 de abril de 2012

Teleanálise | "A Filha de Flora"

Malu Fontes


Há duas semanas da estreia, o novo novelão global das nove, Avenida Brasil, já tem uma vilã para chamar inteiramente de sua e, diga-se de passagem, muito mais crível que a tal rainha do Nilo inverossímil que até pouco tempo batia ponto no mesmo bat-canal e atendia pelo nome de Tereza Cristina (Christiane Torloni). Agora é a hora e a vez da Carminha de Adriana Esteves, a vilã de João Emanuel Carneiro. De tão imoral e amoral, Carminha tinha tudo para não ser tolerada pelo público de novelas, assim de um gole só, já nas primeiras cenas da novela. Embora o gosto por telenovelas no Brasil e o realismo do gênero no país leve a crer que o telespectador é permeável a algumas tolerâncias, a verdade é que o público situa-se numa posição moral muito pouco ou quase nada disposta a concessões quando alguns autores lhe apresentam personagens que adentram determinadas fronteiras morais e familiares sem oferecer compensações. 

Nina e Carminha, personagens de Avenida Brasil. Foto: iG
VÍSCERAS - Sim, a vilania nas novelas tem limites e quase sempre esse limite é construído usando como válvula de escape a loucura ou o humor da personagem. Além disso, recomenda-se deixar de fora perversidades explícitas contra crianças. Nazaré Tedesco, Tereza Cristina, Laura Prudente e Odete Roitman tinham, cada uma ao seu jeito, algo de histriônico, traços de humor e eram carregadas de bordões. Assim, só para citar estas, iam contornando aos olhos dos telespectadores seus excessos pouco críveis cometidos. Já Carminha, criada pelo “pai” de Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008), o mesmo João Emanuel Carneiro, não traz concessões: é a perversão em estado bruto, in natura, uma vilã absurdamente imoral e amoral, a um ponto tal que, apostar em um personagem com sua constituição moral no início de uma trama televisiva e lhe dar tamanho destaque nos primeiros capítulos, é um risco que só autores, roteiristas e diretores de mão cheia se permitem correr, pois a chance de o público abandonar a poltrona com as vísceras revolvidas existe e não é pequena.

LÁGRIMAS OCEÂNICAS - Mas, diferentemente do que se insinua nessas primeiras semanas de novela no ar, a promessa criativa e arrojada do modelo de vilania de Carneiro nem de longe está depositada em Carminha. Ou nem de longe está depositada exclusivamente nela. As fichas dos jogos sobre a moralidade, a ambiguidade da maldade e sobre a tese dos fins justificarem ou não os meios estão na mesa, mesmo, é para a mocinha insólita da trama usá-las e abusá-las: a ex-Rita e atual Nina (Débora Falabella), a branca de neve metaforizada, vítima da Carminha amoral, órfã hiperbólica de pai e mãe e objeto de todas as maldades associadas às madrastas das fábulas.
Descartada e literalmente depositada num lixão e depois redimida pelo amor de uma mãe postiça interpretada por Vera Holtz que lhe faz a ponte com uma adoção bem sucedida por uma família argentina, a Branca de Neve de Carneiro volta adulta à trama, disposta literalmente a revolver o lixo onde foi jogada, a devolver aos seus algozes cada lágrima derramada sob a interpretação da dulcíssima Mel Maia na primeira fase. E, de tantas, as lágrimas causadas por Carminha e vertidas por Rita-Nina/Mel, já nem pareciam cenográficas, mas oceânicas.

TALHERES - Filho da fina flor da classe média alta do Rio de Janeiro, nascido e criado nos melhores endereços do Leblon, filho único de mãe antropóloga e de formação cultural densa, João Emanuel Carneiro é, no casting da nova geração de autores da Globo, um nome de duzentos talheres. Embora fale de subúrbio, jogadores de futebol meso decadentes, bailes funk e técnicas de alisamento capilar da nova classe C, o moço não esconde que suas referências são de uma sofisticação literária a toda prova: de Crime e Castigo de Dostoievski, a Ilusões Perdidas, de Balzac, passando pela ideia de vingança da trama de O Conde de Monte Cristo, ele chegou à sua Branca de Neve revisitada no lixão. Para descrever as relações familiares e sexuais do subúrbio, vai de Nélson Rodrigues. E para dar densidade à sua heroína que de mocinha não terá quase nada, vai dele mesmo: mergulha em sua própria criação, Flora, a vilã adorável de Patrícia Pillar em A Favorita.
Carneiro tem feito questão de dizer em entrevistas que Nina é nada menos que uma filha dileta de Flora, uma Flora melhorada, má que só, mas com uma causa nobre que justifica seus sentimentos: Nina é uma vilã-mocinha, ambígua, eivada de maldades, mas para quem a família brasileira (expressão dele) não terá pudor de torcer. A favor, claro. Carneiro nega peremptoriamente que Nina seja uma personagem em busca de vingança. Enfatiza que todo o mal que a mocinha cheia de ódio fizer contra a vilania de Carminha atende pelo legítimo nome de Justiça.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 08 de abril de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com
                 

domingo, 1 de abril de 2012

Teleanálise | "Entrevista com o diabo"

Malu Fontes

A semana televisiva em Salvador foi marcada pela presença ostensiva dos gêmeos Diego e Diogo Leão, 27 anos, nos programas populares. Com direito a exibição e repetição exaustiva de vídeos com performances estranhas dos dois, nas emissoras e no YouTube, contendo cenas que iam de beijos na linha desentupidores de pia homoeróticos e incestuosos a frases desconexas e comportamentos para lá de nonsense na delegacia, os gêmeos bombaram como sensação da imprensa ‘facinha’. Os rapazes, de uma família de classe média da cidade de Mossoró (RN), chegaram a Salvador num carro da família, usado sem permissão, e com 9 mil reais, retirados de um cofre dos pais também sem consentimento. 


Os gêmeos Diego e Diogo.


OUTRO MUNDO - Aparentemente sob o efeito de drogas ou sob um surto psiquiátrico, Diego e Diogo foram presos em pleno rush na Avenida Paralela, o corredor de tráfego mais intenso de Salvador, acusados de causar riscos de acidente e de morte, própria e dos demais motoristas que trafegavam pelo local. Pararam o carro numa das pistas, atravessaram o canteiro central e foram para o outro sentido, deitando-se no asfalto quente para fazer flexões, correndo o risco de serem atropelados e causando perplexidade aos motoristas. Sim, todo mundo que leu sobre os gêmeos de Mossoró nos jornais, nos sites ou os viu na TV considerou-se diante de cenas do outro mundo. 

Entretanto, diante do volume de cenas explícitas de surrealismo que desfilam diariamente na tela da TV, a maioria delas protagonizadas por gente que se leva e é levada a sério por milhões de telespectadores, os gêmeos de Mossoró podem se dar ao luxo de reivindicar, no panteão da hierarquia do nonsense, uma colocação bem baixa no ranking. Nos últimos dias, por exemplo, duas sumidades brasileiras a quem jamais se atribuiu surto por drogas ou por transtornos mentais protagonizaram cenas veiculadas na imprensa que deixam no chinelo as atitudes esquisitas de dois irmãos que resolvem fazer flexão no asfalto de um corredor de tráfego de alta velocidade.  

OVELHAS - Há algumas semanas, dois bispos nacionalmente famosos por estarem à frente de milhões de fiéis de duas igrejas neo-pentecostais, ambas ancoradas na teologia da prosperidade aqui e agora e disputando ovelhas e dízimos a tapa, vêm se engalfinhando diante das câmeras de TV. O roteiro e o repertório do confronto televisivo fazem os gêmeos parecerem crianças inocentes brincando de meninos maluquinhos num parquinho de playground. Qual telespectador, em perfeito estado de suas faculdades mentais, poderia crer que, em 2012, a televisão brasileira estaria tão evoluída ao ponto de proporcionar uma entrevista feita diretamente com o diabo e exibida como se fosse algo sério e real?  Sim, uma entrevista com o próprio: ‘sete pele’, pé-redondo, demo, satanás, lúcifer e todo o corolário de codinomes que o tal tem.

Pois não é que, para acusar o bispo 2 de satanismo e de associação com práticas diabólicas, o bispo 1 convocou o próprio diabo para ser entrevistado em sua emissora, comprada com o dízimo de suas ovelhas? O entrevistado, certamente mais sensato que seu entrevistador, embora tenha aceitado o convite para a entrevista, achou por bem não misturar sua diabólica imagem, construída há milênios e, portanto, com tanto a perder, com gente de tão má reputação e parece ter negociado algumas condições: pelo que tem se percebido, o diabo só aceitou falar, ou seja, ser entrevistado, se ‘encostado’ em alguma fiel endiabrada. O ‘sete pele’ entra numa pessoa na condição de encosto e através dela responde a todas e quaisquer perguntas, todas, claro, visando confirmar que o bispo 2 é seu afilhado envidio e que representa o mal absoluto do mundo. Confirma com todas as letras que tudo fará para destruir o bispo 1 e seus seguidores. Este, como digno representante de Deus, parece que ainda não conseguiu agendar com a assessoria de imprensa celestial uma entrevista com o Pai Eterno, para que o próprio confirme todas as boas intenções do bispo 1, sua filiação legítima ao céu e ao Bem Supremo. Mas, bem relacionado como é com as outras dimensões, o entrevistador não demora e convence os céus a falarem a seu favor.

Ana de Hollanda põe ovo em pé. Crédito: Bahia Notícias
OVO EM PÉ - Como se não bastasse bispos entrevistando o diabo na TV, eis que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, mais apagada no cargo que as cinzas do incêndio causado há séculos por Nero, resolveu por um ovo em pé. Sim, não é ironia nem trocadilho. A irmã de Chico resolveu fazer isso na Linha do Equador. Talvez por achar que o lugar em si justificaria o ato, desse um pouco de dignidade e seriedade à coisa, a ponto de se deixar fotografar ajeitando o ovo no concreto, até pô-lo direitinho. Diante de cenas assim, protagonizadas por gente que nem admite ter puxado um fumo antes, como fizeram os gêmeos, e que é levada a sério por religiosos e poderosos, quem são mesmo os doidos, os surtados e os insanos?  


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 01 de abril de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

segunda-feira, 19 de março de 2012

Teleanálise | "A queda do Fantástico é da televisão aberta"

Malu Fontes

Ao completar duas mil edições no ar no último domingo, o Fantástico apareceu em praticamente todos os veículos de imprensa, incluindo o cordão infindável de sites, blogs e portais na Internet não pelo aniversário e pelo fôlego longo, mas por sua perda de audiência. A notícia era a de que a principal revista eletrônica da televisão brasileira havia perdido 38% de sua audiência em pouco mais de uma década. Se no ano 2000 o programa tinha uma audiência média de 34,3 pontos, ao longo de 2011 a média foi de 21 pontos. Os dados são do Ibope e cada ponto equivale a 58 mil domicílios na Grande São Paulo.

O que chama atenção, no entanto, é que o tom das notícias publicadas sobre a queda do Fantástico tem sempre um quê de comemorativo e parece querer ignorar completamente as mudanças ocorridas no cenário da audiência da televisão aberta no Brasil nas duas últimas décadas. O programa perdeu audiência? Sim, é absolutamente verdade. Mas, as duas outras perguntas a serem feitas simultaneamente são: sim, mas quem não perdeu? Sim, mas quem ganhou? Só assim, verifica-se que o Fantástico e sua derrocada de telespectadores, comemorada sem disfarce pela concorrência, é tão somente um sinônimo não apenas para a queda de audiência da televisão brasileira, mas para a mudança de comportamento da população, da sociedade.

GENÉRICO - O fato é que se o Fantástico perdeu quase 40% da audiência em quase duas décadas, nenhum dos seus concorrentes conquistou esse público perdido. Ele foi para outro lugar. Para a Internet, para o vídeo game, para a TV por assinatura, para o DVD, para o Blu Ray, para os tablets, para os smartphones e não para a tela das emissoras que dariam um doce para abocanhar esse público que escapuliu das noites globais de domingo. Só a título de ilustração, o Domingo Espetacular, uma espécie de genérico criado pela Record para competir com o Fantástico, nunca sai da metade da audiência do seu modelo. E não é verdade que os dois não se esforcem para se aproximarem um do outro e ambos da audiência, o que parece não estar funcionando.


Enquanto o Domingo Espetacular patina na metade da audiência do concorrente apelando para reportagens modorrentas que parecem durar uma eternidade e que só convidam o telespectador a dormir ou fugir via controle remoto em busca de algum dinamismo, o Fantástico parece cada vez mais com uma central de realities shows populares, disposta a tudo e mais alguma coisa para seduzir, abduzir e hipnotizar a nova classe C. A cada edição aparece algo mais esdrúxulo, como briga de parentes, bafafás em condomínios, apresentadores perdendo quilos, gente subindo num palanquete no meio da rua para mandar recado com um megafone para o diabo e o papagaio e agora filhos nunca reconhecidos pelos pais reivindicando seus nomes nos registros civis e, claro, produzindo lágrimas na audiência.


SUICIDA - Nesse cenário, com não apenas o queridinho para ser chamado de abandonado pela audiência, no caso, o Fantástico, mas todas as emissoras, na média, perdendo público para outras mídias, como se seus funis estivessem furados, deveria ser obrigação dos profissionais de imprensa que noticiam as quedas de audiência sempre prestar, ao leitor ou ao telespectador a quem se dirigem para informar, um servicinho jornalístico a mais e contextualizar o fenômeno.


A televisão aberta, e não o programa A, B ou C, é que está diante do desafio de reinventar-se. Não é o meio televisual que está em crise, mas o modo de produção de televisão comercial, na esteira das transformações provocadas nos últimos anos pelas novas tecnologias. Não se trata de risco de morte ou colapso, mas da alteração de cenários que jamais voltarão a ser os mesmos. A porca torce o rabo, no entanto, é quando se vê que, diante da fuga do público para formatos que este considera mais interessantes, o que prevalece é uma solução suicida dos canais abertos: produzir coisas cada vez menos interessantes aos olhos desse novo telespectador em processo de migração.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 04 de março de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

domingo, 22 de janeiro de 2012

Teleanálise | "A Polícia no Projac"

MALU FONTEs

Nem bem estreou e o Big Brother Brasil 12 já chegou dizendo a que veio: convocou todo o país para falar de um suposto estupro na tal casa e todo mundo atendeu à convocação, a imprensa junto, é claro. Há uma semana que não se fala em outra coisa no País. Daniel estuprou ou não estuprou Monique? Pouco importa saber quem é um ou outro. Basta saber que são BBBs para que aquilo que um fez com o outro, ou contra o outro, passe a ter relevância nacional. Quiçá, internacional, visto que o formato BBB é globalizado, vale lembrar.

Para se chegar a essa convocação  atendida majoritariamente por uma sociedade inteira, não se pode perder de vista, mais do que o assunto em si, a força desprogramada e incontrolável do fenômeno que já atende pelo nome de informação compulsória ou jornalismo compulsório. O fenômeno consiste no seguinte: mesmo que um determinado leitor não tenha absolutamente nenhum interesse num tipo específico de notícia, geralmente relacionada ao mundo das celebridades, ele saberá dessa notícia.


MORTO- Exemplos claros de notícias compulsórias: seja você quem for, se nas últimas semanas não tiver lido ou ouvido nada sobre o estupro do BBB, Luiza no Canadá e sobre Michel Teló, muito cuidado. Belisque-se, pois você deve estar morto. A consequência imediata da noticia compulsória é transformar o país num Fla-Flu, num Ba-Vi: uns são mortalmente contra o personagem objeto da notícia, outros doentiamente a favor e uma dúzia de silenciosos querem se mostrar intelectualmete superiores por se acreditarem fora do estádio apenas por ficarem rondando-o de soslaio na porta taxando os outros de imbecis.

Se houve estupro ou não na casa do BBB, exibido pela Globo apenas para os telespectadores que têm TV por assinatura e compraram o Big Brother 12 pay per view, a emissora, a Polícia, a Justiça e os envolvidos que deem ao episódio o tratamento que a lei determina. Estupro é crime e até onde de sabe o Código Penal não é flexível para contextualizações como o fato de ambos estarem trêbados com a anuência e estímulo de uma atração televisiva e do ato ter acontecido diante de trocentas câmeras. Embora Boninho, o eterno diretor do programa tenha insinuado queixas à lei que enquadra o estupro, considerando-a como "muito ampla", o fato é que estupro é estupro e não há meio termo.


Para além do que quer que seja que tenha ocorrido nas barbas da Globo e de sua tipificação ou não como crime, impressionou a flora e a fauna que vieram a público 'enriquecer' o debate. De 'blogueiros progressistas' que aproveitaram o coito global para puxar o saco do patrão atual e lavar mágoas com os Marinho, pedindo que o Governo Dilma cassasse imediatamente a concessão da Rede Globo como emissora de TV até empresários e agentes dos dois personagens envolvidos trocando acusações moralistas, racistas e sexistas, nenhum nicho de protestantes deixou de dar seu depoimento nas redes sociais desde o imbróglio do edredon.


POVO NEGRO - Sim, a repercussão se tornou maior que o fato e por mais que no dia do ocorrido Pedro Bial tenha resumido o que pode ter sido um crime sexual com um "o amor é lindo” e tenha explicado ao público a expulsão do acusado de estupro com um vago "comportamento inadequado", durma-se a Globo e os patrocinadores do BBB com um barulho desses feito pela fauna e flora na web. Quem quiser que acredite que os principais patrocinadores do programa fiquem extamente tranquilos com sua imagem junto ao público tendo investido mais de 100 milhões de reais e vendo suas marcas associadas a estupro. A emissora, por sua vez, teve um consolo e tanto. Se antes do 'estupro' a audiência do BBB 12 patinava na faixa dos 20 pontos, a pior de todas as edições, após o sexo supostamente não consentido o Ibope registrou um crescimento de 80% na audiência, que passou dos 36 pontos. Na fauna e flora já há o nicho que garante que o estupro foi forçado para inflar a audiência e que Daniel não passa de um vendido traidor do povo negro.



E já convocando o diabo para refestelar-se nos detalhes, vale lembrar que, tendo sido estupro de vulnerável, abuso sexual ou relação sexual consentida, é fato que, dado o estado de perturbação alcoólica do casal, jamais cogitou-se convidar a camisinha para meter-se sob o fatídico edredon. Aliado a isso sabe-se que fazer sexo sem proteção com um parceiro que nunca se viu na vida e cuja responsabilidade com o par é zero, sempre pode acabar, no mínimo, em duas roubadas: na contaminação por uma DST (Doença Sexualmente Transmissível) dessas que se tem que carregar para sempre, Aids incluída, ou numa gravidez indesejada.


ABORTO - Como perguntar não ofende, vale uma interrogação:  se foi mesmo estupro e a moça tivesse ficado grávida, o público, em se tratando do BBB, seria convocado a participar da decisão a ser tomada sobre o destino do feto? Sim, pois em caso de estupro o direito de abortar é assegurado por lei no Brasil. E as igrejas, evangélicas e católicas, já que agora são todas amigas do tipo unha&cutícula com a Globo, iriam todas se manifestar contra a opção do aborto,  como fizeram durante a campanha eleitoral? Ou quem sabe Boninho, o eterno diretor do programa, poderia encampar o nascimento do rebento para, uma vez nascido, mantê-lo para sempre aprisionado na 'Casa' e inaugurar outro reality na linha Truman Show?


Outra pergunta cabível em tempos de estupro transmitido ao vivo por pay per view: que tal nas próximas edições do BBB chamar o consultor e comentarista da Globo, Rodrigo Pimentel, para ensinar aos brothers e sisters como fazer para tomar todas e não correr o risco de estuprar nem ser estuprado na 'Casa' do Projac? Se ele vai até para a Rodoviária do Tietê no Natal ensinar aos nordestinos como não descuidarem-se das mochilas de costas para não atrair ladrão e às ruas para ensinar como as mulheres devem proteger a bolsa ao carregá-las... Convoca o Rodrigo Pimentel, Bial.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Teleanálise de Malu Fontes | "Água mineral para maltês e lama para gente"

Quem tem muito dinheiro, obviamente pode gastá-lo como quiser e, claro, comportar-se como bem quiser e ninguém tem, em tese, nada a ver com isso. Entretanto, quando esse quem decide que vai fazer essas duas coisas em relação ao seu próprio e rico dinheiro em público, ou seja, gastá-lo e comportar-se perante um país inteiro, que potencialmente poderá espiar cenas explícitas de exibicionismo econômico e de consumismo, então não poderá reclamar dos julgamentos que certamente espocarão na mesma velocidade da iluminação dos tubos catódicos da TV.


As "mulheres ricas" da Band
E é esse tipo de julgamento que vem acontecendo na imprensa, nas páginas de comentários de blogs e sites e nas redes sociais desde a estreia, na semana passada, do reality show da Band, Mulheres Ricas. O programa entrou na ar na última segunda-feira  para ocupar o horário durante a temporada de férias do CQC. A atração reúne cinco mulheres milionárias, seja por herança de família, fruto de trabalho ou por cama, traduzida, neste caso, como casamento, claro. A socialite carioca ‘ai que loucura’ Narcisa Tamborindeguy, a ex-sem terra, capa de Playboy e atual piloto de Fórmula Truck e rica Débora Rodrigues, a joalheira Lydia Sayeg, a arquiteta Brunete Fraccarolli e a empresária e apresentadora de TV Val Marchiori estão no ar para mostrar ao país como é viver sem limite no cartão de crédito.


TRAVESTI - De saída, se há algo obrigatório quando se vê, analisa ou critica qualquer programa de televisão é não perder a ideia de contexto e de conjunto do fluxo televisivo, do que é o veículo TV e do gênero com o qual determinada atração televisiva dialoga e que veio antes dela. Embora, no Brasil, o gênero reality tenha se consolidado com o Big Brother Brasil, da Globo, que esta semana estreia a sua 12ª edição, o SBT bem que tentou sair na frente com sua Casa dos Artistas. Num paralelo não só com o BBB, mas com a Casa dos Artistas, A Fazenda e coisas que tais, as moçoilas ricas da Band saíram perdendo de goleada na estreia.


Não se fala de audiência, claro, que ninguém de bom senso vai comparar a audiência e o faturamento turbinados de um BBB com os 4 pontos e alguma coisa marcados na estreia de Mulheres Ricas. Fala-se de justificativa para tamanha exposição para quem já tem tanto dinheiro, do potencial empatia com o público e do elemento mais delicado de todos na TV: espontaneidade ou, pelo menos, representação com naturalidade. Para quem achava o povo do BBB esquisito, artificial, que experimente 5 minutos diante do repertório de Val, Brunete e Lygia, diante das quais Narcisa e Debora parecem cool e os BBBs parecem atores capazes de interpretar Hamlet. Algumas das muheres ricas da Band são tão over e caricatas que parecem estar imitando um travesti sem talento num palco.


GUILHOTINA - Como não arregalar os olhos diante de uma uma velhota coberta de botox e surtada ao ponto de exigir ser fotografada para a capa de uma revista segurando uma Barbie, ambas vestidas e maquiadas à imagem e semelhança uma da outra? A tal, com sua autoridade de arquiteta, alfineta diante da casa de Debora Rodrigues, pintada de azul turquesa, que o único jeito para a casa melhorar de aspecto seria a demolição. Sim, mas o que diz seu próprio espelho de Dona Brunete, diante daquele rosto esculpido de silicone e botox e do seu cabelão de Barbie? Um espelho sensato sugeriria a ressurreição da guilhotina de Maria Antonieta para, quem sabe, com algum esforço, tentar aproveitar o que sobrasse ao sul do pescoço com um transplante de cara.


O povo que nunca gostou de livro mas tem uma atração fatal pela pretensão de parecer ilustrado poderá aproveitar mulheres ricas para fazer um curso intensivo de filosofia by Chanel. Sim, depois que a rasice abusou de mandar correntes por e-mail com textos que Pessoa, Veríssimo, Jabor e Borges nunca escreveram e depois que não-leitores de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu resolveram assassiná-los diariamente no Facebook e no Twitter, agora é a vez do povo da TV transformar Chanel em filósofa. Quer uma frase feita sobre elegância? Diga-se qualquer merda, coloque na boca de um personagem e diga que é de Chanel. Até Maria Adelaide Amaral foi longe para promover sua minissérie sobre Dercy Gonçalves. Para ela, Dercy e Chanel tinham a mesma classe, o mesmo brilho e a mesma filosofia de vida. Ah, tá. Val Marchiori and friends não abrem a boca sem citar uma máxima atribuída a Chanel.

PORNOGRAFIA – Entretanto, o melhor personagem da estreia de Mulheres Ricas não fazia parte do elenco. Era um coadjuvante: o jornalista e escritor Guilherme Fiuza, colunista da revista Época e autor de vários livros. Meio sisudo e sempre mal humorado em seus comentários sobre os mal feitos do governo, soa hilário ele achar tudo tao bem feito no comportamento da mulher, a rica e ‘rafinada’(sic) Narcisa. Sim, na estreia de Mulheres Ricas, o seríssimo Guilherme Fiuza lembrou ao país que, indepedentemente do dinheiro do ser amado, sim, o amor parece continuar muito cego.

Outra coisa que deu para aprender com o programa, usando a estratégia de ver TV no fluxo, ou seja, zapeando e confrontando cada cena, programa ou notícia com o contexto do país, foi a extensão do significado do termo pornografia social. Tem coisa mais pornográfica do que ver uma rica mostrando que sua cachorra maltês só toma água mineral, e em taça de cristal, enquanto, logo após, o telejornal da mesma emissora e todos os demais concorrentes mostram milhares de brasileiros desabrigados, afogados, sem socorro, gente literalmente atolada na lama, com casa e família juntas, em avalanches de enchentes diante das quais o país não investe um centavo em prevenção? Vá convencer uma criança pobre que não é melhor ser cachorro de madame... Ah, em tempo: no dia 10 estreia o primeiro reality da TV baiana. Oito pessoas confinadas dentro de um trio elétrio, o Trio Reality, na TV Aratu/SBT. Diz-se que o elenco será formado por semi-famosos que ficaram no meio caminho rumo ao estrelato da Axé Music. Oremos.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 08 de janeiro de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com