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sábado, 16 de junho de 2012

Teleanálise | "Jornalismo prescritivo: dicas para não morrer nunca"

Malu Fontes

Alguns dos espaços antes ocupados, no jornalismo impresso e no telejornalismo, por um subgênero chamado de jornalismo de serviço, serviam para informar aos leitores e telespectadores o que abriria e fecharia nos feriados, cotação de preços de produtos alimentícios básicos em períodos especiais ou estações, onde encontrar atendimento para uma série de demandas sociais, dicas de emprego e de outras oportunidades, foram, aos poucos sendo substituídos pela tendência da auto-ajuda. Nos últimos anos tal tendência virou febre e a televisão embarcou nessa onda sem nenhum comedimento.

Das bancas de revistas, aos jornais impressos e nos programas de TV matutinos e vespertinos é impossível contar a quantidade de produtos voltados para dizer às pessoas como elas devem viver, comer, dormir, fazer sexo. Enfim, para qualquer ponto que se olhe da indústria cultural há um texto, um apresentador, um especialista ou, na maioria das vezes, um picareta de plantão na televisão, dizendo o que as pessoas devem fazer para serem felizes e viverem bem todos os dias da vida. O fenômeno é tão alarmante que basta ler, ouvir ou assistir as falas desses conselheiros de plantão, personais de tudo, para deduzir que o enunciado dos seus discursos, no conjunto, não diz outra coisa senão: se vocês fizerem tudo o que a gente manda, comerem tudo o que a gente aconselha, fizerem os exercícios certos, usarem os produtos que recomendamos, nunca morrerão, pois as causas da morte ou os riscos de esta acontecer desaparecerão de suas vidas.

VASSOURA - A televisão aberta vive hoje uma febre em suas grades de um gênero que pode ser chamado ironicamente de telejornalismo prescritivo, caracterizado como um discurso de papagaio treinado que repete sem parar tudo o que o cidadão deve fazer: de quanto em quanto tempo deve trocar os travesseiros e por quais para não ser acometido de síndromes alérgicas irreversíveis a como pegar direito na vassoura e manejá-la para limpar a casa sem que a coluna vertebral um dia se desmonte e para, de quebra, perca-se algumas calorias e ganhe-se massa muscular. Sim, a faxina de casa é apresentada à dona de casa como uma irresistível forma de exercitar o corpo. Desde que seja feita, é claro, com muito prazer e com movimentos mais articulados e coreografados diante da vassoura, do balde d’água e do pano de chão do que os de um corpo de baile de um grupo de dança premiado por suas coreografias.

Se o Fantástico, no quadro Medida Certa, já colocou seus apresentadores, Zeca Camargo e Renata Ceribelli a fazer diante do público todos os esforços do mundo para ensinarem aos telespectadores como entrar em forma, agora é a vez de ensinar a mesma coisa às crianças. Recrutou algumas, todas gordinhas, exceto um garoto, para fazer o mesmo no Medidinha Certa, ensinando-os (e aos pais) a comer e ter um corpo bom. No mesmo Fantástico, não faz muito tempo o Doutor Bactéria ensinava o tempo certo para trocar a esponja de lavar pratos. Mas se todo programa de TV que se preze hoje tenha embutido em seu formato um quadro dizendo o que alguém deve fazer e o que evitar, o prêmio vip da categoria fica com o global matinal Bem Estar. No programa se aprende de tudo. É o formato mais redondo do que já se pode chamar de jornalismo prescritivo, um jornalismo que tem como mote prescrever receitas cotidianas de como viver da maneira certa.     

VIVARINA - Assim como há algum tempo todo mundo se perguntava se as facas Ginsu (anunciadas como capazes de cortar até pedra) cortariam as meias Vivarina (uma meia fina feminina à prova de qualquer dano, de unha de gato a escoriações em chão árido), hoje já se pode perguntar do que morrerão as pessoas se elas cumprirem todas as prescrições que os especialistas de plantão desfiam nos programas de TV. Todas as doenças parecem ser passíveis de serem evitadas e até mesmo a violência parece ser coisa da ordem da escolha das vítimas. Rodrigo Pimentel, o Capitão Nascimento de carne e osso, está todos os dias na Globo ensinando todos como fazer para evitar assalto e repetindo pela enésima vez como uma mulher deve carregar uma bolsa para que esta não seja levada pelo ladrão.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 17 de junho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 26 de maio de 2012

Teleanálise | "Do 'Xournalismo' de Xuxa à bela e as feras"

Malu Fontes

A semana jornalística começou sob o prognóstico de que as declarações de Xuxa ao Fantástico, anunciando que fora abusada sexualmente reiteradas vezes da infância, até os 13 anos e por diferentes homens adultos, dariam o tom da repercussão facinha do jornalismo de fofoca e, sobretudo, das redes sociais.  Em Salvador, no entanto, a metamorfose da versão da Rainha dos Baixinhos de 'Xou da Xuxa' para 'showrnalismo do eu', a fórmula batida de jornalismo de celebridade em que famosos expõem intimidades e dizem coisas no divã eletrônico da TV que algumas pessoas levariam anos gastando os tubos para falar ao analista, teve a cena roubada pelo showrnalismo dos PPPs, o jornalismo sensacionalista que deita e rola sobre os presos pobres da periferia e só falta bater continência para presos de operações milionárias.


Xuxa em entrevista ao Fantástico: "Xournalismo". Crédito: Estadão

BOIADA - Em Salvador, com repercussão para além da cidade e do Estado, uma repórter de um dos programas televisivos populares foi espinafrada após algo que alguns chamam de entrevista, dela com um suposto garoto acusado de estupro, cair na rede e provocar um efeito retardado, mas acachapante sobre a moça. Os artigos indefinidos usados até aqui, uma repórter, um programa, não é um caso de cuidado em não dar nome aos bois. Ao contrário, é uma forma de abranger a boiada. A moça, loura, jovem, rica, ao fazer troça com um encarcerado preto e pobre foi atirada aos leões, mas sozinha.


Repórter hostiliza entrevistado pobre. Ela é só um exemplo de alguns que têm esse comportamento. Crédito: Jornalismo B

De injustiça, as acusações à moça não têm nada, mas daí a usá-la, sozinha, como boi de piranha e bode expiatório da fórmula jocosa como presos e acusados do que quer que seja são entrevistados pelo formato de telejornalismo que hoje viceja sob aplauso popular (segundo mostra a audiência) e sob o silêncio da Justiça e do Estado, é hipocrisia da boa. Moiçolos que fizeram fama como entrevistadores e apresentadores desse tipo de programa, apenas mais feiosos que Mirella Cunha e com maior concentração de melanina, repetem todos os dias o mesmo comportamento jocoso que o do vídeo dela que correu as redes com um poder quase viral.


FERAS - E quem nunca assistiu a nada parecido é porque, em nome do bom gosto ou de um comportamento blasè intelectual prefere arrotar coisas do tipo: ah, eu não vejo lixo. Pois quem sabe se o "lixo" viesse sendo visto mais de perto, inclusive pelas autoridades que agora anunciam o enquadramento legal da moça nas letras constitucionais, saber-se-ia, de há muito, que ela é tão somente a mais nova e bonitinha cria desse gênero de entrevistador/a na Bahia. E não duvidem: deve ter sido escolhida a dedo justamente por sua lourice, juventude, fashionice e beleza. Ela cabe como uma luva num personagem que os programas concorrentes ainda não tinham: a Bela, para ser explorada no vídeo como contraponto às feras entrevistadas, ou seja, os bárbaros que TODOS os programas dessa natureza, que se estapeiam cotidianamente pela audiência, sobretudo na grade vespertina, exibem como as feras e os monstros que levam alguns telespectadores a salivar sonhando com a pena de morte.

O diálogo da Bela com seu entrevistado soa abjeto aos olhos dos defensores da igualdade de direitos entre presos A e presos B? Sim, ninguém há de negar. Mas antes de a transformarem na Geni solitária, que tal fazer um rastreamento analítico de seus colegas de função na concorrência para conferir suas performances? E os delegados que permitem tal nível de jocosidade nos espaços do Estado em troca do capital simbólico que angariam com o telespectador que quer sangue? E o governador, que quase que mensalmente faz uma ronda nas emissoras batendo o ponto como entrevistado nesses mesmos programas que os críticos chamam de escória? E se no resto do tempo é só desgraça nas cenas desses programas, nos dias de ronda do governador nos estúdios todos os apresentadores só lhe fazem perguntas do tipo escada, aquelas que garantem respostas bonitas ou burocráticas.


CACHOEIRA - Crucificar Mirella é fácil. Mas cadê peito e de quem para evitar que rotineiramente seus colegas presepeiros perguntem de um tudo a quem não tem advogado para poder ficar calado? Carlinhos Cachoeira ficou em silêncio quase 3 horas no Congresso, recusando-se a responder, sob as bênçãos do lastreado Márcio Thomaz Bastos, qualquer pergunta dos nobres senadores da República. E tudo bem. Na TV baiana, se qualquer preso ou acusado pobre insinua uma resposta hostil, os coleguinhas de Mirella, sob as bênçãos dos delegados em busca de flash, gritam logo: respeite o repórter! Ah, tá. O mesmo garoto que é trollado pela Bela, no dia em que foi preso, passeou, no mesmo dia, pelas telas da concorrência. E quem disse que foi abordado de forma muito diferente pelos outros entrevistadores e apresentadores? Mirella não está só em seu modus operandi, ao contrário do que, agora, querem fazer crer seus concorrentes.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 27 de maio de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

segunda-feira, 19 de março de 2012

Teleanálise | "A queda do Fantástico é da televisão aberta"

Malu Fontes

Ao completar duas mil edições no ar no último domingo, o Fantástico apareceu em praticamente todos os veículos de imprensa, incluindo o cordão infindável de sites, blogs e portais na Internet não pelo aniversário e pelo fôlego longo, mas por sua perda de audiência. A notícia era a de que a principal revista eletrônica da televisão brasileira havia perdido 38% de sua audiência em pouco mais de uma década. Se no ano 2000 o programa tinha uma audiência média de 34,3 pontos, ao longo de 2011 a média foi de 21 pontos. Os dados são do Ibope e cada ponto equivale a 58 mil domicílios na Grande São Paulo.

O que chama atenção, no entanto, é que o tom das notícias publicadas sobre a queda do Fantástico tem sempre um quê de comemorativo e parece querer ignorar completamente as mudanças ocorridas no cenário da audiência da televisão aberta no Brasil nas duas últimas décadas. O programa perdeu audiência? Sim, é absolutamente verdade. Mas, as duas outras perguntas a serem feitas simultaneamente são: sim, mas quem não perdeu? Sim, mas quem ganhou? Só assim, verifica-se que o Fantástico e sua derrocada de telespectadores, comemorada sem disfarce pela concorrência, é tão somente um sinônimo não apenas para a queda de audiência da televisão brasileira, mas para a mudança de comportamento da população, da sociedade.

GENÉRICO - O fato é que se o Fantástico perdeu quase 40% da audiência em quase duas décadas, nenhum dos seus concorrentes conquistou esse público perdido. Ele foi para outro lugar. Para a Internet, para o vídeo game, para a TV por assinatura, para o DVD, para o Blu Ray, para os tablets, para os smartphones e não para a tela das emissoras que dariam um doce para abocanhar esse público que escapuliu das noites globais de domingo. Só a título de ilustração, o Domingo Espetacular, uma espécie de genérico criado pela Record para competir com o Fantástico, nunca sai da metade da audiência do seu modelo. E não é verdade que os dois não se esforcem para se aproximarem um do outro e ambos da audiência, o que parece não estar funcionando.


Enquanto o Domingo Espetacular patina na metade da audiência do concorrente apelando para reportagens modorrentas que parecem durar uma eternidade e que só convidam o telespectador a dormir ou fugir via controle remoto em busca de algum dinamismo, o Fantástico parece cada vez mais com uma central de realities shows populares, disposta a tudo e mais alguma coisa para seduzir, abduzir e hipnotizar a nova classe C. A cada edição aparece algo mais esdrúxulo, como briga de parentes, bafafás em condomínios, apresentadores perdendo quilos, gente subindo num palanquete no meio da rua para mandar recado com um megafone para o diabo e o papagaio e agora filhos nunca reconhecidos pelos pais reivindicando seus nomes nos registros civis e, claro, produzindo lágrimas na audiência.


SUICIDA - Nesse cenário, com não apenas o queridinho para ser chamado de abandonado pela audiência, no caso, o Fantástico, mas todas as emissoras, na média, perdendo público para outras mídias, como se seus funis estivessem furados, deveria ser obrigação dos profissionais de imprensa que noticiam as quedas de audiência sempre prestar, ao leitor ou ao telespectador a quem se dirigem para informar, um servicinho jornalístico a mais e contextualizar o fenômeno.


A televisão aberta, e não o programa A, B ou C, é que está diante do desafio de reinventar-se. Não é o meio televisual que está em crise, mas o modo de produção de televisão comercial, na esteira das transformações provocadas nos últimos anos pelas novas tecnologias. Não se trata de risco de morte ou colapso, mas da alteração de cenários que jamais voltarão a ser os mesmos. A porca torce o rabo, no entanto, é quando se vê que, diante da fuga do público para formatos que este considera mais interessantes, o que prevalece é uma solução suicida dos canais abertos: produzir coisas cada vez menos interessantes aos olhos desse novo telespectador em processo de migração.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 04 de março de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com