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domingo, 1 de abril de 2012

Teleanálise | "Entrevista com o diabo"

Malu Fontes

A semana televisiva em Salvador foi marcada pela presença ostensiva dos gêmeos Diego e Diogo Leão, 27 anos, nos programas populares. Com direito a exibição e repetição exaustiva de vídeos com performances estranhas dos dois, nas emissoras e no YouTube, contendo cenas que iam de beijos na linha desentupidores de pia homoeróticos e incestuosos a frases desconexas e comportamentos para lá de nonsense na delegacia, os gêmeos bombaram como sensação da imprensa ‘facinha’. Os rapazes, de uma família de classe média da cidade de Mossoró (RN), chegaram a Salvador num carro da família, usado sem permissão, e com 9 mil reais, retirados de um cofre dos pais também sem consentimento. 


Os gêmeos Diego e Diogo.


OUTRO MUNDO - Aparentemente sob o efeito de drogas ou sob um surto psiquiátrico, Diego e Diogo foram presos em pleno rush na Avenida Paralela, o corredor de tráfego mais intenso de Salvador, acusados de causar riscos de acidente e de morte, própria e dos demais motoristas que trafegavam pelo local. Pararam o carro numa das pistas, atravessaram o canteiro central e foram para o outro sentido, deitando-se no asfalto quente para fazer flexões, correndo o risco de serem atropelados e causando perplexidade aos motoristas. Sim, todo mundo que leu sobre os gêmeos de Mossoró nos jornais, nos sites ou os viu na TV considerou-se diante de cenas do outro mundo. 

Entretanto, diante do volume de cenas explícitas de surrealismo que desfilam diariamente na tela da TV, a maioria delas protagonizadas por gente que se leva e é levada a sério por milhões de telespectadores, os gêmeos de Mossoró podem se dar ao luxo de reivindicar, no panteão da hierarquia do nonsense, uma colocação bem baixa no ranking. Nos últimos dias, por exemplo, duas sumidades brasileiras a quem jamais se atribuiu surto por drogas ou por transtornos mentais protagonizaram cenas veiculadas na imprensa que deixam no chinelo as atitudes esquisitas de dois irmãos que resolvem fazer flexão no asfalto de um corredor de tráfego de alta velocidade.  

OVELHAS - Há algumas semanas, dois bispos nacionalmente famosos por estarem à frente de milhões de fiéis de duas igrejas neo-pentecostais, ambas ancoradas na teologia da prosperidade aqui e agora e disputando ovelhas e dízimos a tapa, vêm se engalfinhando diante das câmeras de TV. O roteiro e o repertório do confronto televisivo fazem os gêmeos parecerem crianças inocentes brincando de meninos maluquinhos num parquinho de playground. Qual telespectador, em perfeito estado de suas faculdades mentais, poderia crer que, em 2012, a televisão brasileira estaria tão evoluída ao ponto de proporcionar uma entrevista feita diretamente com o diabo e exibida como se fosse algo sério e real?  Sim, uma entrevista com o próprio: ‘sete pele’, pé-redondo, demo, satanás, lúcifer e todo o corolário de codinomes que o tal tem.

Pois não é que, para acusar o bispo 2 de satanismo e de associação com práticas diabólicas, o bispo 1 convocou o próprio diabo para ser entrevistado em sua emissora, comprada com o dízimo de suas ovelhas? O entrevistado, certamente mais sensato que seu entrevistador, embora tenha aceitado o convite para a entrevista, achou por bem não misturar sua diabólica imagem, construída há milênios e, portanto, com tanto a perder, com gente de tão má reputação e parece ter negociado algumas condições: pelo que tem se percebido, o diabo só aceitou falar, ou seja, ser entrevistado, se ‘encostado’ em alguma fiel endiabrada. O ‘sete pele’ entra numa pessoa na condição de encosto e através dela responde a todas e quaisquer perguntas, todas, claro, visando confirmar que o bispo 2 é seu afilhado envidio e que representa o mal absoluto do mundo. Confirma com todas as letras que tudo fará para destruir o bispo 1 e seus seguidores. Este, como digno representante de Deus, parece que ainda não conseguiu agendar com a assessoria de imprensa celestial uma entrevista com o Pai Eterno, para que o próprio confirme todas as boas intenções do bispo 1, sua filiação legítima ao céu e ao Bem Supremo. Mas, bem relacionado como é com as outras dimensões, o entrevistador não demora e convence os céus a falarem a seu favor.

Ana de Hollanda põe ovo em pé. Crédito: Bahia Notícias
OVO EM PÉ - Como se não bastasse bispos entrevistando o diabo na TV, eis que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, mais apagada no cargo que as cinzas do incêndio causado há séculos por Nero, resolveu por um ovo em pé. Sim, não é ironia nem trocadilho. A irmã de Chico resolveu fazer isso na Linha do Equador. Talvez por achar que o lugar em si justificaria o ato, desse um pouco de dignidade e seriedade à coisa, a ponto de se deixar fotografar ajeitando o ovo no concreto, até pô-lo direitinho. Diante de cenas assim, protagonizadas por gente que nem admite ter puxado um fumo antes, como fizeram os gêmeos, e que é levada a sério por religiosos e poderosos, quem são mesmo os doidos, os surtados e os insanos?  


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 01 de abril de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 10 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Aonde o telejornal vai, o Estado vai atrás"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Se há um aspecto com o qual o telespectador assíduo e atento dos telejornais está acostumado é com a repetição de cenas nas quais as câmeras de TV, ocultas ou não, denunciam uma prática criminosa ou desumana e no dia seguinte o Estado está no mesmo local, como se convocado e pautado pela imprensa. Em um país onde as coisas funcionam, a ordem mais natural é aquela em que o Estado e suas ações pautam a imprensa, no sentido de transformar tais ações em notícias ou cobrar dos gestores públicos o cumprimento destas em grau satisfatório.

No contexto brasileiro, no entanto, há omissões crônicas do Estado, práticas sociais criminosas que se repetem há anos e para que o poder público venha à sociedade prestar contas ou oferecer possibilidades de solução é preciso que a imprensa, sobretudo a televisão, chegue antes e mostre a barbárie da vez. Um exemplo clássico desta prática se deu na primeira sexta-feira de setembro, quando o Jornal Nacional exibiu uma reportagem na qual denunciava a prática sistemática e ostensiva do tráfico e consumo de drogas, aliada ao roubo e à agressão física dos consumidores pelos traficantes, no centro histórico de Recife.


GLOBETROTTER - Desnecessário dizer que tal cenário exibido pelo Jornal Nacional não se tratava de algo episódico, de mais ‘um caso isolado’, como adoram dizer os gestores públicos quando são confrontados de calças curtas diante das mazelas sob suas pastas. O fato, registrado com câmera oculta pela equipe do telejornal, é algo que se repete desde tempos imemoriais naquele local sem que o Estado tomasse uma atitude pelo fato de as coisas serem daquele ou de outro modo. No dia seguinte à exibição da reportagem-denúncia, a própria emissora já estava no local para acompanhar as medidas tomadas pelo Estado: o policiamento havia sido amplamente reforçado no centro histórico, batidas foram feitas, alguns suspeitos foram presos e o movimento criminoso, miraculosamente, havia desaparecido.


A primeira pergunta que deveria ser dirigida, não ao Governo de Pernambuco, à Polícia de Recife, mas a toda e qualquer instituição pública em contexto semelhante é: as medidas foram adotadas porque uma determinada prática criminosa fora realizada em um determinado espaço ou o governo agiu porque o Estado hoje parece agir não para atender às necessidades dos cidadãos, mas para dar uma resposta e uma satisfação para que um determinado meio de comunicação filme, narre, relate? Ou alguma autoridade quer fazer a opinião pública crer que a Polícia de Recife, por exemplo, nunca tomou conhecimento de que o cenário nas noites de determinados points do centro histórico da cidade era aquele há anos? No entanto, a presença policial estava ali para dar uma satisfação e uma matéria ao Jornal Nacional e aos seus telespectadores. O fluxo das ações públicas parece invertido: é o Estado que segue a televisão, indo atrás dela para se justificar quanto às suas incompetências e omissões. Só reage quando um flash estoura na cara.


Como a Rede Globo é líder de audiência em seus telejornais, torna-se, automaticamente, uma grande acionadora dos poderes públicos. De modo geral, é como se os governantes vivessem dormindo em berços esplêndidos e só se dessem ao trabalho de sair dos seus cochilos modorrentos quando a imprensa lhe gritasse na cara, estampando um retrato social feio. Esses retratos podem existir à vontade, desde que não sejam exibidos jornalisticamente, pois só quando isso acontece é que os fatos parecem ganhar vida para gestores públicos. Um exemplo concretíssimo disso é o projeto Jornal Nacional no ar, o avião do jornalismo da Globo que cruza o país, um globetrotter nacional da notícia in loco.



RICARDO TEIXEIRA - Como na edição do dia os apresentadores anunciam onde o avião estará no dia seguinte e fazendo o quê, prefeitos, governadores, secretários, delegados e tudo o quanto é gato pingado têm se virado nos 30 para maquiar realidades em menos de 24 horas para tentar ficar bem na fita na edição do telejornal no dia seguinte. Não, não é apenas Ricardo Teixeira que compartilha a tese dos governos militares de que um fato ‘se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu’.  


Um exemplo recente de que o Estado vive a reboque das denúncias feitas na televisão foi o episódio denunciado nos telejornais em que uma mãe em trabalho de parto foi recusada por mais de uma vez em várias maternidades de Belém, resultando na morte dos dois bebês. No dia seguinte o avião do Jornal Nacional estava ‘na maternidade’ e o que não faltavam eram autoridades cheias de boa vontade prometendo a Deus e à Globo abrir inquéritos, fazer auditorias, demitir e punir culpados. Alguém acredita que alguma medida punitiva seria adotada se o fato não tivesse sido denunciado na imprensa por várias emissoras de TV e por vários jornais? Ou que o tratamento dado à mãe de Belém é muito diferente do recebido diariamente por milhares de mulheres no resto do país?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 11 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com