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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Teleanálise | "O Partido da Imprensa Golpista (PIG) tornou-se aliado"

Malu Fontes

O Jornal Nacional acabou com a liderança de Marco Prisco sobre a paralisação da Polícia Militar da Bahia em seu 9º dia de greve e redefiniu radicalmente os rumos do movimento. Imediatamente após o telejornal de maior audiência do país, em sua edição da noite de quarta-feira, veicular gravações de ligações grampeadas, obtidas com exclusividade via governo, ressalte-se, entre o líder da greve, Marco Prisco, e outras lideranças do interior do Estado articulando o fechamento de rodovias baianas, e de policiais do Rio de Janeiro com lideranças políticas cariocas sobre a estratégia de usar a greve da Bahia como mecanismo de deflagração de uma paralisação nacional, a greve, o motim, a paralisação, ou seja lá que nome seja dado ao impasse que escancarou a violência em toda a Bahia, mudou completamente de feições.


Diante do movimento em si, das suas consequências políticas (para o Governo do Estado e para a imagem da Polícia Militar da Bahia), e, sobretudo das consequências sociais, com cerca de 140 homicídios em pouco mais de uma semana, saltava aos olhos algumas avaliações de autoridades sobre o começo do desfecho na quinta-feira. Não foram nem dois nem três parlamentares e autoridades públicas a elogiar o desfecho do imbróglio e a afirmar em bom som diante dos microfones dos telejornais o quanto todas as negociações foram conduzidas com sensatez, fazendo com que tudo terminasse bem e sem derramamento de sangue (sic).


OS ‘BAIRROS MAIS...’ - Como assim, ‘sem derramamento de sangue’? Ou estão todos completamente imbuídos de um esforço político cínico de negar o que se assemelha a tons de uma chacina de grandes proporções e estão banalizando índices de violência inaceitáveis, ou a expressão derramamento de sangue só teria sido digna desse nome se o sangue fosse dos militares, dos mais favorecidos ou se desse-se em bairros de classe média? O que houve senão um oceano de sangue quando uma cidade matou em menos de uma semana mais de 14 dezenas de pessoas?


Embora os telejornais tenham veiculado e atualizado cotidianamente essa contabilidade macabra durante a greve, poucas dessas vítimas parecem ter nome, endereço, profissão. São os sempre PPPs assassinados de sempre, só que em escala aumentada durante a greve: os pretos, pobres, da periferia. Nesse contexto, também foram ilustrativas as entrevistas publicadas na Folha de S. Paulo quinta-feira, no mesmo espaço, de Fátima Mendonça, a primeira dama do estado, e de Cláudia Leitte. Não é que a sensatez estava mais presente nas falas da segunda? Para Fátima, os assassinatos foram todos nos bairros ‘mais...’. Assim mesmo, com reticências. Para o resto, ou os bairros ‘menos...’ a palavra usada foi ‘tranquilo’.


LABORATÓRIO - Diante desses números, custa a crer, mas houve uma parcela da classe média que se considera do bem, amiga da pobreza, que, sentada, abancou-se nas redes sociais e protestou contra o sensacionalismo da imprensa por divulgar números tão alarmantes, como se estes fossem inventados nas redações. Achando pouco, anunciaram que fizeram uma espécie de antropologia participativa na periferia, um laboratório, diga-se. Pegaram seus carros e anunciaram superiores que fizeram rondas, da orla ao subúrbio ferroviário, da Graça à Suburbana, e nada de anormal viram, além de muita tranquilidade, é claro.


Ô, mas para essa observação participativa ser crível, já que para essas pessoas a TV não é crível por preferir sensacionalizar, não seria mais honesto pegar um buzu na Estação da Lapa, na Estação Pirajá ou um trem no Terminal da Calçada? Sim, pois as pessoas intranquilas, assustadas, assassinadas, primeiro, não ‘passam’ de carro por esses lugares onde os antenados fizeram seus laboratórios de observação: ficam lá, moram lá; segundo, suas casas não estão assentadas sobre os trechos de fluxo do trânsito onde trafegam os carros. A população amedrontada não mora na faixa de tráfego da Suburbana, mas em ruas internas onde os observadores não entraram, em becos, vielas, casas e barracos sem muro ou proteção, a maioria com portas frágeis e não raro têm na vizinhança pequenos mas ferozes exércitos armados em guerra uns contra os outros por pontos de drogas.


PIG - O outro aspecto ilustrativo da greve foi a observação dos modos como giram as engrenagens do poder e da política partidária antes e depois de conquistarem o poder. Todo e qualquer brasileiro sabe que o Partido dos Trabalhadores construiu boa parte de sua história atuando com estardalhaço nos bastidores de greves. Na Bahia, essa foi a primeira que o partido experimentou um movimento de grandes proporções e consequências estando no lugar de vidraça. Todo e qualquer leitor bem informado também sabe que, desde que chegou ao poder, o PT e seus seguidores que pensam e agem com o fígado e transformam toda e qualquer notícia envolvendo alguém do partido em coisa pessoal, em corpo a corpo desqualificador de quem fala ou escreve, dividiram a imprensa brasileira em duas categorias separadas por um grand canyon moral, ético e ideológico: a imprensa progressista, santa, ética, de um lado e o PIG, o partido da imprensa golpista, do outro, com os diabos que manipulam informações e só publicam mentiras para desestabilizar as lideranças petistas. Sim, os bastiões do PIG para quem divide a imprensa sob essa clivagem são a revista Veja e a Rede Globo de Televisão e, nesse contexto, o Jornal Nacional é tido como o legítimo filho do diabo.


É ou não é ironia que, tendo em mãos a nitroglicerina que eram as gravações feitas via grampos autorizados pela Justiça nas quais as lideranças da paralisação da Polícia na Bahia articulam o fechamento de rodovias, a inteligência dos órgãos de segurança de um governo do PT tenha preferido entregar de bandeja o furo nacional justamente para o mais autêntico dos produtos, tido como o filho legítimo do PIG? Nos bastidores das notícias, a emissora do bispo, e mais ainda os blogueiros bem abençoados chamados de progressistas, devem ter se sentido feridos n’alma com essa traição. Ou seja, audiência é audiência e desde que o PIG possa ser transformado em um baita aliado para tirar governos ditos de esquerda do desconfortabilíssimo lugar de vidraça, nos unamos a ele. Mas que a pergunta é válida, ah é: se a Globo é tão amaldiçoada pela esquerda, que chega à patetice de viver pregando ‘Um dia sem Globo’ nas redes sociais, por que justo a ela foi dada a primazia e o privilégio do furo das conversas grampeadas de Marco Prisco? Democratização da informação, entrevista coletiva, mesmo sob embargo de algumas horas que fosse... Para quê, se o que se quer mesmo é a audiência segura?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 12 de Fevereiro de 2012, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 12 de novembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Corram com a marcha que a Polícia vem aí"


Malu Fontes, professora e jornalista
Enquanto mais um ministro passava a semana pendurado no pau de arara das denúncias de corrupção, desta vez no Ministério do Trabalho, o Brasil acompanhava take a take pela TV os movimentos de uma espécie de Malhação real, em versão para adultos e com ares de suspense policial: a peleja travada entre a Polícia Militar de São Paulo e o grupo de estudantes que invadiu a Reitoria da USP após três alunos terem sido levados para uma delegacia por terem sido flagrados fumando maconha no campus. Esse “era” o embate inicial, um conflito interno travado entre uma penca de alunos e a PM.

No entanto, assim que o conflito se estabeleceu e chegou à opinião pública, o caldo entornou. O roteiro foi ficando cada vez mais complexo e non sense, o número de personagens envolvidos foi aumentando literalmente aos milhares a cada dia e papéis de mocinhos, vítimas, heróis, vilões, bárbaros e bandidos foram sendo atribuídos, seguidos de pedido de clemência ou de invocação a um massacre moral ou físico sumário, por tudo o quanto é gente que hoje pode dar sua opinião, seja diante de uma câmera de TV, numa entrevista a um repórter de veículo impresso ou on line, numa rede social ou nos comentários postados sobre a cobertura do assunto nos sites jornalísticos.

VILÃO - É preciso dizer que o roteiro muda completamente de versão e os personagens mudam completamente de atores a depender dos lugares sociais, econômicos, ideológicos, e sabe-se lá o que mais outros, de quem os vê e os adjetiva. Um mesmo ator social pode, nesses roteiros construídos pela opinião pública, como se tem visto na cobertura televisiva e em toda a midiosfera, assumir, em um, o papel de vilão estrategista interessado em privatizar a USP, em outro o de mocinho-salvador da pátria e da honra moral da universidade pública e, em um outro roteiro, o de um picolé de chuchu invertebrado que não tem pulso firme o suficiente para mandar a PM arrebentar com um boa coça os arruaceiros, vagabundos e maconheiros que, ao invés de estudar, querem puxar um fumo à vontade sem serem importunados na universidade.

Esse papel triplo na trama USP versus PM tem sido atribuído a ninguém menos que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Os partidos de esquerda radicais como o PCO (Partido da Causa Operária) ficam com a primeira opção para caracterizar o papel do governador nesse imbróglio, a opinião pública média tende a ficar com a segunda classificação e os conservadores saudosistas da ditadura não pestanejam em categorizá-lo no terceiro papel. Para quem viu o programa do Partido da Causa Operária exibido essa semana no Horário Eleitoral Gratuito na TV deve ter ouvido a explicação da legenda para o que aconteceu: os estudantes que invadiram a reitoria da USP o fizeram como revolucionários que são, em sua luta em favor da sociedade brasileira e contra a sanha estatizadora do tucanato contra as universidades públicas. Que maconha? Não, essa versão jamais chegou aos ouvidos do PCO.

Embora muitos comentaristas que defendem o direito dos uspianos fumarem seu bagulho à vontade no campus sem serem importunados pela Polícia tenham dito que a mídia tradicional massacrou os manifestantes, a verdade é que muitos jornalistas os defenderam em suas colunas. Outros tantos, entre personalidades, especialistas e professores defensores de um tratamento, digamos, ‘diferenciado’ aos universitários por parte da Polícia, também se manifestaram em diversos debates na TV fechada (na aberta os debates inexistem). O nó maior da questão do conflito na USP se deu não em função do episódio inicial, mas no fato de este ter se transformado no estopim de trocentos mil debates que não há como um veículo como a TV explicar claramente a seus telespectadores. Primeiro, apenas uma pequeníssima parte da opinião pública brasileira sabe que a Polícia não entra nos campi universitários públicos por uma conquista e ao mesmo tempo um tabu herdados da ditadura militar.

CRACOLÂNDIA - Como, na época da ditadura e em parte do tempo que a precedeu a Polícia entrava na Universidade não para policiar, mas para prender, censurar e reprimir professores e alunos considerados subversivos, com a redemocratização, um dos direitos conquistados pelas universidades públicas foi o de se proteger da Polícia, mantendo-a longe. No entanto, as coisas no Brasil mudaram um tantinho desde o fim da ditadura, a violência urbana explodiu e como a universidade não é uma bolha em relação às cidades onde estão instaladas, a criminalidade também chegou aos campi com assassinatos, estupros, roubos e tráfico. Diante dessa mudança de cenário, boa parte de estudantes e professores hoje já se deram conta que esse conto da carochinha de Polícia só da porta para fora não irá muito longe. Foi o que aconteceu na USP. Um estudante foi assassinado durante um assalto e desde então a USP (que é estadual, mantida pelo Governo de São Paulo), fez um acordo para a PM atuar dentro do Campus.

Era uma questão de tempo: os policiais viram estudantes fumando maconha no campus da USP, maconha ainda é uma droga ilícita, não fizeram vista grossa e o resto é o que se viu na imprensa. O que começou com umas tragadas evoluiu para a rejeição já existente contra o reitor, para as relações entre o PSDB e os partidos de esquerda e chegou à campanha eleitoral, quando o candidato do PT ao governo de São Paulo, o atual ministro da Educação, Fernando Haddad, insinuou que a Polícia havia exagerado ao invadir a reitoria ocupada pelos estudantes. Afirmou que a USP não é a cracolândia (para ser invadida daquele jeito). Mesmo que o caso da USP comporte uma série de questões peculiares, a universidade pública que bote as barbas de molho, pois, do jeito que a coisa anda em termos de segurança pública no país, é bom que os estudantes abracem mais fortemente a causa e as marchas da legalização da maconha, pois, sim, a Polícia vem aí e nunca vai ter modos de mordomo francês.  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 13 de novembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com