Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Teleanálise | "Quanto vale uma convicção?"

Malu Fontes

Um fato ocorrido no último feriado do trabalho, em Portugal, sem nenhum destaque nos telejornais brasileiros, deu a medida do quanto, no circo do consumo, tudo está à venda e pode ser negociado, principalmente as mais sólidas convicções ideológicas. Os brasileiros talvez tenham dificuldade de entender o ponto zero de todo o barulho gerado no feriado do trabalhador nas principais cidades portuguesas. No Brasil, há muito tempo, não apenas os supermercados, mas todo o comércio abre as portas durante os feriados e os finais de semana e ninguém reclama. 

Confusão em um dos supermercados da rede portuguesa Pingo Doce. Crédito: Sapo.pt

Este ano, em Portugal, bastou uma rede de supermercados anunciar que abriria suas lojas no feriado de primeiro de maio para todo o país dar início a um intenso e apaixonado debate sobre os limites do capitalismo e do consumismo e seus impactos na vida das pessoas. Os sindicatos propuseram imediatamente uma greve nacional visando tão somente impedir que a rede de supermercados levasse essa heresia adiante, com o apoio de entidades da sociedade civil. Os argumentos eram de que o desejo de lucro dos empresários não poderia se sobrepor ao direito do lazer e descanso dos trabalhadores no 1º de maio.  

SARAMAGO - Enquanto a sociedade, a intelectualidade, o senso comum em cada esquina e os empregados de supermercados faziam do assunto a polêmica de ocasião, os donos da rede tiveram uma ideia que durante todo o dia de terça-feira transformou as cidades e bairros mais importantes do país em um cenário vivo do livro de Saramago, se este tivesse vivido o bastante para batizar sua obra de Ensaio Sobre o Consumo, em vez de Ensaio Sobre a Cegueira.


A rede de supermercados, uma das principais do país e que atende pelo sugestivo nome de Pingo Doce, achou a fórmula para obter consenso quanto à abertura das portas pela primeira vez na história portuguesa no 1º de maio: sem qualquer campanha publicitária, deixou correr pelas cidades os boatos verdadeiros de que, ok, cometeria uma heresia ideológica trabalhista mas, ofereceria uma compensação e tanto a quem aceitasse o convite para ir fazer umas comprinhas no feriado. Todos os clientes que comprassem mais de 100 euros, teriam um desconto de 50%. Foi o suficiente para as convicções dos trabalhadores e cidadãos portugueses sobre a sacralidade do 1º de maio se desfazerem. Afinal, que convicção resiste a uma proposta indecente que transforma uma conta de mil euros em 500? Com 50% de ganho, quase todo mundo vende a sua.


CIGANOS - As cenas exibidas pela TV portuguesa, descritas pelos jornais impressos do país e os vídeos disponíveis para o mundo no YouTube mostram em que pode se transformar um espetáculo de consumo. O surrealismo começou nas madrugadas anteriores ao feriado, com a população cigana. Negociantes natos do tipo que vislumbram de longe uma boa oportunidade de lucrar muito investindo pouco, os ciganos acorreram aos supermercados, enfiaram uma moeda de um euro para cada carrinho de compras que ficam nos estacionamentos das lojas (lá os carrinhos só são destravados após a inserção de uma moeda, devolvida ao fim das compras e quando do retorno do equipamento ao local de origem) e logo em seguida postaram-se a alugá-los para os primeiros madrugadores das filas e os alugavam a 25 euros. Naturalmente não havia, a essa altura, um só carrinho disponível para ser retirado em troca da tal moeda de um euro.


O cenário foi dantesco, para muito além do surto que acometia os personagens de Saramago no Ensaio Sobre a Cegueira. Centenas de pessoas presas, dez horas em filas para efetuar pagamentos nos caixas, laticínios devorados sem pagar dentro da loja pela fome que os clientes começaram a sentir diante de tantas horas de filas, caos e espera, pessoas quebrando garrafas para usar como armas com o intuito de disputar produtos, prateleiras absolutamente vazias antes do meio da tarde e cidades com engarrafamentos nunca vistos em nenhuma delas. 

NABO - O caos foi tamanho que se tornou um problema de polícia, de estado, de segurança pública, de economia (dumping) e, acima de tudo, um debate ideológico sobre o que pode e até aonde vai a sanha ensandecida por consumo. Quem acha que convicção ideológica de trabalhador não tem preço, ofereça-lhe um desconto de 50% diante de um carrinho de supermercado cheio, mesmo que para vender-se por esse desconto o contemplado precise correr risco de vida. E embora a Rede Globo tenha um correspondente em Portugal, nenhum minuto dos telejornais da casa foi dado a este episódio. Ah, mas se fosse um nabo gigante colhido na quinta do seu Manuel em algum ponto da Beira Interior, certamente o Jornal Hoje noticiaria com destaque...   





Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 06 de maio de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

sábado, 28 de abril de 2012

Teleanálise | "A indústria do bem e suas lavanderias de imagem"


 Malu Fontes

Apesar de a crise econômica que desde 2009 vem chacoalhando o mundo, inclusive o mundo dos muito ricos, ter abalado um tantinho o chão das grandes corporações de capital nacional e multinacional, ainda são elas que dão as cartas (e as caras) da economia globalizada. Não há Estado topetudo que tenha poder para enfrentar o poder e o capital das grandes empresas, exceto nas ditaduras, onde as duas coisas se misturam e viram uma só. Para traduzir o poderio inabalável das grandes corporações há dois documentários mais que ilustrativos: Inside Job e The Corporation, ambos lançados no Brasil, o primeiro de 2010 e o segundo de 2003.


Mas este não é um texto sobre as grandes corporações e suas formas tentaculares de agir nos mercados do mundo. É sobre a publicidade veiculada por grandes empresas para lavar suas imagens para lá de duvidosas diante do público consumidor. E nesse aspecto as grandes multinacionais e as medianas paroquiais rezam pelas mesmas cartilhas de comunicação institucional. Todas exibem em suas peças publicitárias televisivas recados primorosos para o público avisando o quanto são boazinhas magnânimas e o quanto investem para proteger os pobres e desvalidos de conta corrente.


LIVROS POR METRO - Para ficar nos arredores da vizinhança, as emissoras locais estão atualmente exibindo duas campanhas publicitárias que são um primor de ironia quanto aos méritos das empresas às quais se referem: a de uma indústria química sediada numa das praias mais valorizadas do litoral norte de Salvador (localizada na própria praia, literalmente) e a de uma empresa de construção e incorporação de apartamentos voltados para a classe média que se quer alta. Há vários outros cases, mas, para a exigüidade do espaço, estes são suficientes para ilustrar o quanto em tempos nos quais se tornou obrigatório falar de responsabilidade social, sustentabilidade e coisas que tais, contratar um bom cérebro publicitário e adotar uma causa bonita já é coisa suficiente para ficar bem na fita.


No caso da indústria química, escolheram uma menina certamente moradora das imediações da fábrica, tida e havida no passado e no presente como causadora de danos bravos ao meio ambiente local (há coisa mais pornográfica em termos ambientais que uma indústria química numa praia?) e mandaram avisar na televisão que está feliz da vida porque já leu dezenas e dezenas de livros e vai chegar a 200. Primeiro que, se a coisa tivesse mesmo compromisso com o incentivo à leitura não seria mais recomendável que a garota testemunhasse sobre o que encontrou nos livros, a aventura, a subjetividade, o alargamento do mundo, a obra de um Lobato, de um Júlio Verne, etc. Falar que a meta é passar de 60 para 200 parece coisa de novela, onde os livros são de mentira e são comprados por metro, como anunciou sem pudor a personagem Carminha, de Avenida Brasil, esta semana. Apontado para a estante da casa, puxou uma coisa parecida com três volumes de uma enciclopédia e retirou da estante uma moldura preta de madeira oca, pintada para fazer parecer lombadas. Sim, livro e leitura remetem a qualidades e não a quantidades. Mas o recado está dado e assim fica: a empresa espalha componentes químicos mar e natureza adentro e a menina dos cachinhos é convocada para anunciar à Bahia que essa mesma empresa é uma fofa e que de tão bondosa lhe proporcionou a leitura de uns quantos livros na biblioteca montada para fazer as vezes de lavanderia da imagem. O anúncio na TV coroa o recado.


CONVULSÃO - Já a construtora e incorporada exibe uma campanha para vender seus apartamentos que é um clássico no setor imobiliário, repetida em 11 a cada 10 lançamentos de condomínios de luxo. Onde havia antes um restinho de mata virgem intocada, incluindo fauna e flora, claro, passa-se um trator, mata-se tudo o quanto é bicho, espalha-se escorpião (aparentemente desdentado) até para a casa do prefeito e no local são construídos trocentas torres apartamentos ou centenas de casas de alto padrão. Sim, a floresta TEVE que ser removida para dar lugar ao empreendimento, mas o que diz o anúncio publicitário para os compradores: venha morar em um lugar onde a natureza está preservada. E, de novo, para todos ficarem bem na fita, os mais pobrinhos das imediações, se crianças, ganham uma brinquedoteca para a comunidade; se mais maduros, com sorte, garantem um emprego de doméstica, jardineiro, etc. E todos, no mundo surreal da indústria da promoção do bem dos pobres e com suas imagens devidamente lavadas, serão felizes para sempre. Mas só nas campanhas publicitárias da TV. Fora da tela, a convulsão social urra.



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de abril de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com