sábado, 10 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Aonde o telejornal vai, o Estado vai atrás"

Malu Fontes, professora doutora e jornalista
Se há um aspecto com o qual o telespectador assíduo e atento dos telejornais está acostumado é com a repetição de cenas nas quais as câmeras de TV, ocultas ou não, denunciam uma prática criminosa ou desumana e no dia seguinte o Estado está no mesmo local, como se convocado e pautado pela imprensa. Em um país onde as coisas funcionam, a ordem mais natural é aquela em que o Estado e suas ações pautam a imprensa, no sentido de transformar tais ações em notícias ou cobrar dos gestores públicos o cumprimento destas em grau satisfatório.

No contexto brasileiro, no entanto, há omissões crônicas do Estado, práticas sociais criminosas que se repetem há anos e para que o poder público venha à sociedade prestar contas ou oferecer possibilidades de solução é preciso que a imprensa, sobretudo a televisão, chegue antes e mostre a barbárie da vez. Um exemplo clássico desta prática se deu na primeira sexta-feira de setembro, quando o Jornal Nacional exibiu uma reportagem na qual denunciava a prática sistemática e ostensiva do tráfico e consumo de drogas, aliada ao roubo e à agressão física dos consumidores pelos traficantes, no centro histórico de Recife.


GLOBETROTTER - Desnecessário dizer que tal cenário exibido pelo Jornal Nacional não se tratava de algo episódico, de mais ‘um caso isolado’, como adoram dizer os gestores públicos quando são confrontados de calças curtas diante das mazelas sob suas pastas. O fato, registrado com câmera oculta pela equipe do telejornal, é algo que se repete desde tempos imemoriais naquele local sem que o Estado tomasse uma atitude pelo fato de as coisas serem daquele ou de outro modo. No dia seguinte à exibição da reportagem-denúncia, a própria emissora já estava no local para acompanhar as medidas tomadas pelo Estado: o policiamento havia sido amplamente reforçado no centro histórico, batidas foram feitas, alguns suspeitos foram presos e o movimento criminoso, miraculosamente, havia desaparecido.


A primeira pergunta que deveria ser dirigida, não ao Governo de Pernambuco, à Polícia de Recife, mas a toda e qualquer instituição pública em contexto semelhante é: as medidas foram adotadas porque uma determinada prática criminosa fora realizada em um determinado espaço ou o governo agiu porque o Estado hoje parece agir não para atender às necessidades dos cidadãos, mas para dar uma resposta e uma satisfação para que um determinado meio de comunicação filme, narre, relate? Ou alguma autoridade quer fazer a opinião pública crer que a Polícia de Recife, por exemplo, nunca tomou conhecimento de que o cenário nas noites de determinados points do centro histórico da cidade era aquele há anos? No entanto, a presença policial estava ali para dar uma satisfação e uma matéria ao Jornal Nacional e aos seus telespectadores. O fluxo das ações públicas parece invertido: é o Estado que segue a televisão, indo atrás dela para se justificar quanto às suas incompetências e omissões. Só reage quando um flash estoura na cara.


Como a Rede Globo é líder de audiência em seus telejornais, torna-se, automaticamente, uma grande acionadora dos poderes públicos. De modo geral, é como se os governantes vivessem dormindo em berços esplêndidos e só se dessem ao trabalho de sair dos seus cochilos modorrentos quando a imprensa lhe gritasse na cara, estampando um retrato social feio. Esses retratos podem existir à vontade, desde que não sejam exibidos jornalisticamente, pois só quando isso acontece é que os fatos parecem ganhar vida para gestores públicos. Um exemplo concretíssimo disso é o projeto Jornal Nacional no ar, o avião do jornalismo da Globo que cruza o país, um globetrotter nacional da notícia in loco.



RICARDO TEIXEIRA - Como na edição do dia os apresentadores anunciam onde o avião estará no dia seguinte e fazendo o quê, prefeitos, governadores, secretários, delegados e tudo o quanto é gato pingado têm se virado nos 30 para maquiar realidades em menos de 24 horas para tentar ficar bem na fita na edição do telejornal no dia seguinte. Não, não é apenas Ricardo Teixeira que compartilha a tese dos governos militares de que um fato ‘se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu’.  


Um exemplo recente de que o Estado vive a reboque das denúncias feitas na televisão foi o episódio denunciado nos telejornais em que uma mãe em trabalho de parto foi recusada por mais de uma vez em várias maternidades de Belém, resultando na morte dos dois bebês. No dia seguinte o avião do Jornal Nacional estava ‘na maternidade’ e o que não faltavam eram autoridades cheias de boa vontade prometendo a Deus e à Globo abrir inquéritos, fazer auditorias, demitir e punir culpados. Alguém acredita que alguma medida punitiva seria adotada se o fato não tivesse sido denunciado na imprensa por várias emissoras de TV e por vários jornais? Ou que o tratamento dado à mãe de Belém é muito diferente do recebido diariamente por milhares de mulheres no resto do país?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 11 de setembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

sábado, 3 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Jaqueline Roriz e o ladrão estrebuchando"

Malu Fontes, professora e jornalista
Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.

O contexto em que as imagens vieram à tona, era, inicialmente, o de abordar a atitude condenável de policiais de São Paulo que protagonizaram a cena, a quem, como representantes do Estado de Direito, cabe socorrer qualquer indivíduo sob condição de sofrimento. As imagens surgiram, portanto, a serviço da tese da defesa dos direitos humanos, como forma de ressaltar que as instituições policiais não podem repetir o comportamento dos criminosos, impingindo-lhes o mesmo tratamento que estes dão às suas vítimas, os cidadãos alvos da violência brasileira cotidiana. Mas uma parte considerável da sociedade que teve acesso ao episódio aprovou os policiais, criticou a imprensa pela denúncia e achou o sofrimento imposto ao ladrão algo do tipo pouco, bom e doce.


VINGANÇA - Na mesma semana em que vieram a público as imagens do assaltante estrebuchando sob o gozo do olhar policial, também foi veiculado na imprensa um episódio em que policiais encurralam um grupo que tentava assaltar um caixa eletrônico em São Paulo, deixando-os sem chance de defesa para se entregarem e sair vivos do assalto frustrado. Mais uma vez, a polícia foi acusada, sob a lógica dos direitos humanos, de provocar a morte dos assaltantes sem chance de defesa. Embora seja através da televisão que esses casos ganhem repercussão nacional, é na imprensa escrita, pela própria natureza dos meios, que é possível acompanhar a reação social diante desse tipo de fato.


As cartas de leitores publicadas em jornais impressos de circulação nacional mostraram durante a semana o tamanho do desafio da imprensa quando se trata de cobrir a violência cotidiana da qual todas as regiões do país são vítimas. O que parece ter se instaurado entre a imprensa e os consumidores de informação, que, são simultaneamente vítimas reais ou potenciais da violência noticiada, é uma equação doentia, sem meios termos, nenhum bom senso, grau de civilidade ou uma qualidade razoável de argumentos. Neste cenário, tem-se, de um lado, uma imprensa que praticamente louva a atitude policial em casos como estes citados e incita o cidadão à vingança e à defesa da pena de morte como forma de enfrentar a violência. Do outro lado, uma imprensa que, ancorada no Estado de Direito, denuncia os crimes cometidos por policiais que reproduzem em suas ações a violência do banditismo. Esta, no entanto, tem sido alvo de reações cada vez mais iradas de cidadãos, que a acusam de estar do lado dos ladrões. Ou seja, à imprensa que não assume o papel de juiz e não aponta o dedo, ela mesma, para o bandido, na condição de acusadora, empurrando-o para a tortura máxima e à morte o quanto antes, sobra o lugar de condenada, assemelhada, ela mesma, aos bandidos.   

SACOLA DE DINHEIRO - Se a imprensa está dividida em duas, uma que denuncia policiais violentos, mesmo que esta violência seja praticada contra bandidos explicitamente em ação, e outra que, nos moldes dos programas policialescos que usam até helicópteros para perseguir imagens de ladrões em fuga, não se conforma com a inexistência no país da pena de morte, a audiência, os leitores, a sociedade, também repete esta divisão. Embora parte dos brasileiros que reivindicam para si o lugar de maior esclarecimento e formação educacional faça cara feia para a imprensa justiceira que saliva por não poder ela mesma prender, arrebentar e matar, é fato que muito mais gente adere à tese desta imprensa e cai de pau na outra, que denuncia abusos policiais. Esta vem perdendo o direito de falar em direitos humanos, pois tem sido reiteradamente acusada, por sua audiência, de ser uma defensora de bandidos, de fazer a opção pelos bandidos, quando deveria ficar ao lado da população e da polícia.

Enquanto a sociedade e a imprensa brasileira dividem-se deste modo, com o lado justiceiro cada vez mais numeroso e arregimentador de seguidores, na prática nada muda, a não ser, e para pior, o tamanho do medo que acompanha todo e qualquer brasileiro hoje. Do mesmo modo, enquanto a classe média faz suas articulações argumentativas e chega a determinadas conclusões, por que o banditismo também não haveria de fazer as suas, ora? Se o povo, sempre muito bem intencionado e defensor da paz, acha que a polícia está autorizada a matar bandido sem chance de defesa e a ver com prazer um ladrão ‘estrebuchando’, por que o assaltante não pode achar razoável considerar que, se Jaqueline Roriz pode levar para casa uma sacola de dinheiro que não era seu sem sequer correr o risco de perder o mandato por isso, por que ele não tem o direito de ter a vida poupada por um policial que o flagra em um assalto?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 04 de setembro de 2011. Jornal A Tarde, Salvador.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "A face relativa dos mortos"*

 *Texto foi publicado em 13 de junho de 2010 e está sendo disponibilizado no blog agora

Malu Fontes, professora e jornalista
Como se sabe, todos os gêneros televisivos e jornalísticos, em temporada de Copa do Mundo de Futebol, curvam-se ao tema da bola. Nesse contexto, é impossível que as informações que passam completamente ao largo disso não fiquem submetidas a um escamoteamento. Mas, mesmo nesse período, em que a impressão que se tem é a de que o controle remoto conduz o telespectador sempre para um mesmo canal (tente passar um dia sem ouvir na TV as palavras vuvuzela, Soweto, Bafana Bafana e uma dúzia de outros termos e tire suas conclusões), tamanha a semelhança das pautas, o gosto pela informação é amigo íntimo de um eterno pendor pelo susto e pela infindável capacidade de surpreender-se.

Fora o tema obrigatório da Copa, a semana dos consumidores de informação em Salvador foi marcada por dois fatos: o primeiro, a prisão de 11 candidatos de um concurso candidatos a nada menos que uma vaga de oficial da Polícia Militar, todos fraudando a prova. O outro, a imagem do cadáver de Irmã Dulce, com resquícios da pele do rosto extremamente escurecida por 18 anos de túmulo e a dentadura exposta, em um ritual que, se não era a intenção da Igreja, foi, sim, transformado num espetáculo grotesco em nome da fé, embora a maioria dos telespectadores tenha fingido não estranhar, em nome de um tabu moral e religioso.

SANTIFICAÇÃO NO TELÃO - Os dois episódios, ambos fortemente noticiados na imprensa local e nacional, são fatos formuladores de perguntas para quem não cansa de buscar respostas na vã tentativa de ler o mundo contemporâneo em todos os seus paradoxos. É impossível ver as emissoras locais e nacionais noticiando e exibindo centenas de pessoas em vigília numa igreja em torno do corpo exumado de Irmã Dulce em tom solene e não se perguntar por que, no contexto jornalístico do cotidiano, a imagem de um cadáver choca tanto as senhorinhas católicas, contidas, de boa educação e cheias de cerimônia com a morte, e um ritual religioso de santificação em torno de um cadáver humano não só as comova, como as atraia, as emocione e as leve a fazer questão de encarar um corpo desenterrado com o que sobrou do rosto sob 18 anos embaixo da terra.


Para tranqüilizar o desejo dos fiéis por tal visão, a Igreja Católica em Salvador avisou na imprensa, já no domingo, que as etapas da cerimônia que não fosse vista diretamente pelo público seriam exibidas em telões. Sim, os rituais da santificação acompanharam muito bem a modernização do mundo e lançam mão da tecnologia digital para mostrar um corpo exumado. Enquanto isso, usar camisinha e anticoncepcional continua sendo pecado, dizem as mesmas autoridades que providenciam telões para transmissão de exumação.  Tudo é certo, tudo é errado e nada é uma coisa ou outra. Algo intolerável num contexto é venerável em outro. É tudo uma questão de referencial e ponto. E como se fala aqui de TV, é apenas uma questão de enquadramento. Cadáver exibido no Na Mira causa repulsa. No telão da Igreja, aproxima o indivíduo de Deus.   


A mesma telespectadora contrita que têm ânsias de vômito ao ver na TV a imagem de um corpo morto pela violência, larga tudo em casa e corre para a Igreja para se emocionar com a morbidez de prostrar-se por minutos diante de um corpo reduzido, em termos de imagem, a uma pele radicalmente escurecida mumificada contornando uma dentadura de um branco reluzente e desproporcional em tamanho pelo encolhimento do que foi uma face. Entrevistadas pelos repórteres de TV, as senhorinhas contritas, sempre entre lágrimas, falam do quão sereno está o rosto da freira morta. A família não cansa de repetir o milagre da ausência de odores. O telão é só o mais simples dos artifícios desse show religioso em torno da morte embalada em santidade.

TABU – A prisão dos 11 candidatos a uma vaga de oficial da PM também se tornou manchete. Os onze foram flagrados fraudando o concurso, usando ponto eletrônico para transmissão de respostas, ao custo de R$ 20 mil pela aprovação (de cada um). Deus nos salve de uma polícia que já entra pelas portas dos fundos, corrupta e corrompida, pagando 20 mil para ter um salário de R$ três mil. E nos salve também de dentaduras desenterradas expostas na TV, santas ou não. Já bastam os dentes recém compradas e fora de tamanho ostentados por Ana Maria Braga e Stênio Garcia. Sim, abordar o grotesco nas hostes da religião mais poderosa do País é um tabu, inclusive para muitos que lêem este texto. Cadáver, nesse cenário, deveria atender pelo nome de relíquias. Mas este é um texto que se assume como aquilo que é: um ponto de vista laico.



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto originalmente publicado no jornal A Tarde, Salvador/BA, em 13 de junho de 2010. maluzes@gmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Bang bang, cinismo e mortes

Malu Fontes, professora e jornalista
Enquanto grupos políticos, em Brasília, cada vez mais se assemelham a quadrilhas brigando de foice por e para tirar cada moeda possível dos cofres públicos, ao ponto de um ministro de Estado, numa espécie de chantagem nada velada para bom entendedor, insinuar que se uns continuarem denunciando os outros vai haver derramamento de sangue entre irmãos e todos morrerão, no chão do país de verdade quem está morrendo mesmo é a população desprovida de saúde. Nos últimos dias, um exemplo nacional e outro local exibidos pela televisão estamparam o quanto o mar de corrupção e as intrigas políticas geradas em torno dele se traduz no dia a dia na ausência do estado na vida de quem precisa ou na prestação de serviços inclassificáveis de tão desumanos.

Em agosto, os telespectadores baianos foram assombrados por imagens de um exército de mais de 2.000 pessoas doentes derretendo de calor, cansaço e sofrimento físico em frente ao Hospital Ana Nery, indicado pelo poder público como o hospital de referência em cardiopatia. Embora nada justifique a presença de dois milhares de pessoas implorando por atendimento médico desde a madrugada até o meio da tarde para pegar esse perverso direito de voltar para casa com esperança de ser atendido um dia, ou seja, o direito à tal da senha para obter uma ficha, os responsáveis pela unidade vieram para a frente das câmeras explicar que havia ocorrido tão somente um erro no sistema de agendamento. Para quem via as imagens e o desespero das pessoas no local era impossível aceitar a tese de que tudo poderia ser reduzido a um erro de sistema.

VALE-FUNERAL - Um outro argumento sempre usado pelo ajuntamento desumano de gente doente em porta de hospital é o de que as pessoas, se doentes e sem possibilidades de atendimento, jamais devem vir para a capital em busca de atendimento. O discurso é belo e aparentemente funcional: devem procurar as prefeituras locais, cadastrar-se e esperar que estas providenciem o agendamento do atendimento em Salvador, via centrais de regulação. Quem acreditar na eficiência desse sistema ganha um doce e quiçá um vale-funeral. O povo, que de muito bobo só tem a aparência, sabe que a política pública da regulação do atendimento entre prefeituras e sistema único de saúde na capital pode ser perfeitamente traduzível, com raríssimas exceções, por uma sentença do tipo: esperem, em seu município, passivamente, a morte chegar. Não venha tumultuar as portas dos hospitais com sua pressa por atendimento, pois não há vagas, não há leitos disponíveis. Essa é a tradução da regulação.  

Um dia antes de um ministro, Mário Negromonte, do PP, baiano, inclusive, quando submetido a denúncias de ter criado um mensalinho para remunerar o apoio dos colegas de bancada mais pragmáticos, dizer, em tom de ameaça, que “em briga de família, irmão mata irmão, e morre todo mundo. Por isso eu disse que isso vai virar sangue”, quem praticamente morria em uma maternidade de referência, em Belém, que lhe batera a porta na cara, era uma mulher em trabalho de parto de gêmeos. Os bebês nasceram mortos e, independentemente de a causa mortis ter sido a negligência, é impossível compreender que uma mulher em sofrimento de parto tenha duas portas na cara em duas maternidades diferentes e acabe parindo bebês mortos em uma viatura do Corpo de Bombeiros.


DONO DE CAPITANIA - Bastou o Jornal Nacional ir à maternidade para o discurso surreal de sempre recomeçar. Não se sabe de quem é a culpa, os médicos que estão na ponta de um sistema perverso não podem se tornar bode expiatórios, as maternidades já estavam superlotadas e a culpa é do sistema como um todo. Sim, a culpa é do sistema, mas não apenas o de saúde, mas o político, ético e moral do país. O impostômetro instalado em São Paulo corre voraz todos os dias anunciando quantos milhões, bilhões, os brasileiros deixam nos cofres públicos a cada bala que compram e a cada salário que recebem. O sistema que faz faltar dinheiro para maternidades ampliarem vagas, instalar leitos, contratar médicos ou para a construção de novos hospitais é o mesmo que sempre dá um jeito de reservar um dinheirão para mensalinhos e para o combustível dos helicópteros da Polícia Militar do Maranhão que conduzem o mais prestigiado dono de capitania hereditária do Brasil, José Sarney, em sobrevoos para ver as belezas de sua ilha de estimação no estado. E ele sente-se tão à vontade com isso que se permite brincar a respeito publicamente.


No mesmo dia em que a realidade da maternidade em Belém onde houve a negação de atendimento à mãe dos gêmeos mortos no parto mudou completamente, por conta da presença das câmeras do Jornal Nacional, nobres senadores, quem sabe estimulados pelo clima Negromonte de insinuar morte de irmão e sangue, trocaram acusações no plenário e por conta não encenaram um bang bang de sopapos. Os afagos morais oscilavam em torno de termos como safado, débil mental, louco e moleque. Em Belém, o representante dos médicos dizia que estes não podem ser o bode expiatório da crise na saúde. Autoridades do sistema de saúde e jurídico diziam ter havido falta de solidariedade no caso da grávida. Todos têm razão sob seu ponto de vista, enquanto o mais elementar fica desfocado: os homens públicos que deveriam empreender todos os esforços para reduzir o sofrimento humano no país, estão mesmo é exercendo o cinismo, as ameaças, as chantagens à companheirada e interessados tão somente na briga por poder, cargos e desvios de dinheiro. Pacientes em desespero e médicos incapazes de dar conta da demanda que se entendam e se acusem entre si por negligências e mortes. Esse é o recado que boa parte de ministros, deputados e senadores mandam de Brasília. Justo Veríssimo é a tendência no Planalto Central.


Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 28 de agosto de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 21 de agosto de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Método abortivo de novela"

Malu Fontes, professora e jornalista
Insensato Coração chegou ao fim na última sexta-feira e, como a teledramaturgia, sinônimo de telenovela no país, há décadas assume no cotidiano e no imaginário dos brasileiros um papel praticamente paradidático, insinuando o que é certo ou errado, bom ou ruim, feio ou bonito, dois aspectos da trama chamaram atenção, principalmente em sua reta final: as abordagens do preconceito contra os homossexuais e da gravidez indesejada.


Do lado de cá da tela, todo mundo sabe que casais formados por pessoas do mesmo sexo existem e que de suas rotinas faz parte tudo aquilo que faz parte de qualquer relação amorosa: afeto, demonstrações públicas e privadas de carinho, beijo na boca, sexo e todo o resto do pacote, conflitos inclusive. Do mesmo modo, todo mundo que tem mais de um neurônio sabe que muitas meninas bem ou mal nascidas, diante de uma gravidez indesejada, já recorreram, sim, ao aborto e continuarão recorrendo, seja seguro ou inseguro, mesmo com a prática sendo ilegal no país. São milhões de mulheres que recorrem à prática e quem diz isso são os serviços públicos de saúde, onde de um jeito ou de outro vão parar as estatísticas de mortes ou sequelas graves em decorrência de abortos, sobretudo os feitos de maneira tosca, com gente que vive disso e não precisa dar garantia de bom atendimento.  


TABU - As novelas brasileiras, no entanto, consideradas por especialistas no assunto, daqui e de alhures, como detentoras de uma das mais sofisticadas técnicas de produção do mundo e também conhecidas pelo seu nível de realismo nas temáticas abordadas, continuam sendo o que são, um produto fluido que só chega perto de temas que não afastem o telespectador. E o que os afasta da tela, comprometendo a audiência e mais ainda a receita publicitária da emissora? Em geral, temas morais, considerados tabus pela sociedade brasileira, pelo que se convenciona chamar de família tradicional, e assuntos que passem perto de questões religiosas, que descambam quase sempre, claro, de novo na moralidade.


Sabendo-se das limitações temáticas das telenovelas no terreno da moral, o telespectador de bom senso sabe que os autores têm limites até onde podem avançar e arriscar, o que não os livra de críticas às vezes ferozes e até injustas de grupos de defesa de determinados grupos sociais engajados na defesa de suas causas. Ou seja, a telenovela vai até um determinado ponto com alguma bandeira comportamental, mais precisamente até a fronteira em que determinado discurso, enquadramento ou abordagem pise nos calos dos tabus da sociedade brasileira. Não precisa dizer que aborto e homossexualidade são um olho nu e gritante no centro do universo de tabus nacionais. Não é à toa que os que cobram da telenovela algum comprometimento com a realidade façam coro exigindo, e esperando, das telenovelas a tal cena tão desejada que nunca veio: o primeiro beijo de língua gay entre um casal de homossexuais. Se for um casal masculino, melhor ainda. Para muitos defensores dos tabus, um beijo entre duas mulheres fica um pouco aquém do tabu e pode estar mais para fetichismo sexual.  


Insensato Coração começou praticamente anunciando a realização da expectativa frustrada do beijo masculino gay. Tinha um dos maiores núcleos de homossexuais já visto numa novela e a trama carregava, a título de merchandising social, a bandeira do protesto contra a violência praticada com os homossexuais, por preconceito, fato corriqueiro no Brasil. No entanto, parece que os compradores de sabão fizeram saber à Globo que de jeito nenhum queriam ver essa ‘pouca vergonha’, e os autores principais da novela, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, foram convidados pela direção da emissora a pisar no freio do chamego entre os meninos sarados do quiosque da trama. O que surpreende e espanta, no entanto, é que, o mesmo telespectador que, em tese, teria mandado avisar à Globo que a boicotaria se visse na tela dois homens se beijando apaixonadamente, parece ter enviado um pedido para ver gays sendo espancados e brutalmente assassinados, em cenas que parecem ter emocionado a audiência dos entabuados, a ponto de elevar o ibope. Lição: o brasileiro médio acha violento demais ver um beijo masculino na TV, mas acha muito emocionante ver um garoto apanhando até morrer de um bando de pit-boys. Foi ou não foi assim, Gilberto Braga?


FETO - E no final, para fechar com chave de ouro a ode aos entabuados do aborto. Uma das mocinhas boas e belas da trama, Cecília, que engravidara de um ficante mau caráter, que lhe embriagara para fazer sexo sem camisinha, jamais, claro, sequer cogitou longinquamente a possibilidade de um aborto. Ao contrário: demonstrou amor eterno ao feto desde que soube da concepção, a ponto de aceitar casar com o vilão para proteger a cria. Como o feto era de um mau caráter e a menina era boa e amava outro homem, esse também bom e puro, a criança seria um ruído difícil de ser engolido pelo telespectador no meio de tanta beleza, pureza e lisura de caráter. Como aborto não pode, foi preciso dar um jeito de arrancar o fetinho de um modo, diga-se, mais ‘bem aceito’ moralmente pela família brasileira compradora de margarina. E assim se fez: a autoria da obra mandou o pai mau caráter do feto dar umas porradas eficientes na mocinha. E era uma vez uma gravidez. Então, quem disse que mocinha de novela não pode abortar? Pode sim. É só escolher o método certo e moralmente adequado. A surra de um homem violento é uma opção completamente aceitável pela audiência.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 21 de agosto de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com

domingo, 14 de agosto de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Algemas e Senzala"

Malu Fontes, professora e jornalista
A semana televisiva foi dividida em três temas dominantes, nas esferas local, nacional e internacional: a morte de nove operários num mesmo acidente, num edifício em construção, em Salvador, mais uma rodada de dezenas de prisões por desvio de dinheiro público federal, desta vez no Ministério do Turismo, e a onda de violência que durante a semana varreu Londres e cidades do entorno, sem que o mundo fosse informado das reais motivações que nutriam a onda de destruição. Em relação ao mais novo escândalo dos últimos dias em Brasília, desta vez com uma esticadinha até a longínqua Macapá, o que dizer? Sempre, na história deste país, cenas de tal natureza brotarão nas manchetes.

No dia seguinte à prisão, emergiram protestos incompreensíveis para o resto dos brasileiros que não frequentam as hostes do poder político e econômico. Bastou o segundo homem forte do Turismo ser preso para muita gente boa do Governo ir para a frente das câmeras dizer que houve abuso de poder por parte da Justiça e para classificar caricaturalmente a ação da Polícia Federal de espetaculosa. As críticas, não aos acusados, mas aos acusadores, não pararam aí: choveram queixas quanto ao uso de algemas. Se for para ser sem algemas, então que fique combinado o seguinte: em caso de prisão, os empoderados não serão ofendidos em sua dignidade pelo uso de algemas, desde que a prática também seja condenada pelos queixosos de agora quando magotes de acusados pobres e pretos forem enfiados algemados nos camburões policiais das grandes metrópoles brasileiras para a TV vespertina e seus urubus filmarem, como acontece todos os dias. E, nesses casos, a Polícia ainda contribui para a qualidade das imagens: segura a cabeça dos acusados pelos cabelos, para o close no rosto ser registrado pelo câmera amigo. O que não pode é só considerar a algema um abuso de poder quando é usada contra apadrinhado políticos. Ora, se desta vez até Sarney saiu de seus cuidados para dizer na TV que "este não se trata de um caso de Política, mas de Polícia"...

SENZALA - Sobre os operários mortos em Salvador, o choro e o protesto dos trabalhadores da construção civil e o fogo ardendo em Londres, há muito mais em comum entre os dois fenômenos do que as notícias do dia a dia permitem ao telespectador deduzir. Diante da onda de violência urbana que rotineiramente varre toda grande cidade brasileira, é jargão típico da turma formada pelos indignados de poltrona, os típicos fãs de Datena e congêneres, o bla bla bla de que os jovens violentos da periferia são a praga do mundo porque não querem fazer nada, mas querem ter tênis de grife e vida fácil. A pobreza, sozinha, não justifica violência e criminalidade, mas também é verdade que a "mão de obra" absorvida pelo crime na periferia brasileira não sabe, nem nunca soube e nem saberá fazer nada, mesmo porque nada lhes foi ensinado. Nem o be a bá.

No entanto, entre esses indignados de poltrona, quantos nutrem admiração social, mínima que seja, por esse exército de homens pobres que diariamente acordam de madrugada, recorrem a um sistema de transporte medonhamente ruim (o que nos subúrbios de Londres já teria levado a trocentos incêndios), e há anos disputam vagas no mercado da construção civil, onde, sabe-se, as condições de trabalho ainda fazem questão de repetir métodos do tempo da senzala, com direito até a figuras revisitadas mas inspiradas no velho capitão do mato?

O que pensam as classes médias altas e altas sobre a opção que diariamente fazem os milhões de trabalhadores da construção civil por uma vida tão árdua se comparada aos salários que recebem e ao reconhecimento social que (não) têm? Não pensam, pois para que pensar nesse assunto? Melhor é fazer como se faz, fingir que não se sabe das péssimas condições de trabalho que essa gente tem e da fiscalização meia boca por parte das instituições públicas. Canteiros de construção civil são, sim, com raras exceções, senzalas atualizadas onde exércitos de homens invisíveis constroem, sabe-se a que custo humano, o sonho imobiliário que vai ilustrar a vida dos melhores situados na pirâmide social. Só quando nove morrem juntos e polifraturados é que uns e outros gritam midiaticamente um "ô meu Deus!". No chão da obra, no dia a dia, o pau quebra e ninguém vê e nem quer saber. Até surgir um espigão deslumbrante vestido de vidro no anúncio publicitário convidando todo mundo a morar no quintal do shopping, como se viver dentro de um fosse, literalmente, o nirvana do mundo.

ADIVINHADORES - Enquanto isso, não deixa de ser ilustrativo como o mundo não sabe o que fazer com os seus outros, aqueles que antes do politicamente correto e do multiculturalismo podiam ser livremente chamados de pobres e excluídos. Agora, ninguém sabe como nomeá-los. O telejornalismo passou a semana referindo-se às áreas de Londres onde espocavam os surtos de violência como "bairros multi-étnicos". Um nome bom e tanto para ser entendido pelo telespectador médio e mais ainda para enquadrar os indesejados do mundo que deveriam ficar estocados quietos esperando a vida passar na televisão. Mais ilustrativo ainda foi o surgimento dos primeiros adivinhadores de plantão. Sem entrevistar nenhum manifestante, "especialistas" diagnosticavam: são jovens dispostos a tudo apenas para consumir, sem ter que pagar por isso. Pelo tamanho da confusão, parece ser só isso não. Mas quando trata-se dos moradores de áreas ‘multi-étnicas’, os especialistas não perguntam antes. Diagnosticam logo, sem escala, para não perder tempo. E para não perder o timing da piada, afinal, quando o Louro José vai se referir aos novos princípios editoriais da Rede Globo?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 14 de agosto de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com 

sábado, 6 de agosto de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "Pode, Luiza?"

Malu Fontes

Malu Fontes, professora e jornalista
Em Salvador, o teminha midiático dos últimos dias tem sido a subida nas tamancas por parte das bandas de pagode e seus seguidores – e seguidoras - diante do projeto de lei da deputada estadual Luiza Maia (PT). A deputada apresentou à Assembléia Legislativa um projeto de lei propondo que bandas e grupos musicais, desses que brotam todos os dias fazendo o gênero novíssima poesia baiana e cujos versos mais líricos dizem que mulher é igual a lata, algo que o homem chuta e outro cata e incorporam coisas prosaicas como ralar a checa e chamam ‘mãinha’ para quebrar, fiquem impedidos de ser contratados pelo governo do Estado, ou seja, que não tenham cachês pagos com dinheiro público do Estado para repetir tais hinos celebratórios à mulher.


Aparentemente não seria preciso explicar que a deputada não quer proibir grupo de pagode nenhum de dizer coisa nenhuma. A proposta é outra, para quem lê o projeto. Ou seja, qualquer ídolo das meninas que quebram, ralam a checa, dançam na boca da garrafa, adoram ser chamadas de cachorrinhas e acham o máximo dar a patinha, pode cantar o que quiser e nem a deputada nem ninguém quer proibir nada. O que Luiza Maia defende é que o poder público, o Governo do Estado da Bahia, fique proibido de contratar artistas para gritar no palco versos misóginos, embora os meninos que a cantem provavelmente nunca tenham sabido ou nunca venham a saber que incorreram em misoginia.


PAULARIA - No entanto, a proposta que prevê que o Governo do Estado não possa remunerar para shows ou outras atividades grupos musicais cujas canções, em tese, denigram a imagem da mulher, foi transformada, em linguagem midiática popularesca em algo como ‘deputada quer proibir bandas de pagode de cantar músicas que ofendam as mulheres’ ou ‘deputada quer censurar bandas de pagode baianas’. E em seguida, veio a paularia na parlamentar, com a cantilena do senso comum de sempre: os deputados não têm o que fazer, a Bahia tem trocentas prioridades outras para merecer proibição e projetos de lei, por que a deputada não vai proibir o povo do funk, que é bem mais desrespeitoso com a mulher, por que ninguém nunca se preocupou com a misoginia que sempre esteve presente na MPB, na obra de Chico, Caetano e João das Couves e, a mais elementar de todas as teses: o pagode não ofende as mulheres. Ao contrário, ele as homenageia, as celebras, e elas adoram, pois todos os versos que falam da sensualidade (da mulher baiana, pois a baianidade adora esta expressão) são uma brincadeira saudável...


Bom, primeiro é bom que alguns críticos aprendam a mais elementar das lições politiquinhas quando forem contrapor um objeto de um projeto de lei a outro. A deputada Luiza Maia tem uma mandato conquistado para ser exercido na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia e só pode, e se puder, se seus projetos forem aprovados, se meter com as causas e as coisas da Bahia. O funk do Rio, se é que alguém está incomodado com ele, não poderia ser objeto do mandato da deputada. Os deputados estaduais cariocas que vejam se Sérgio Cabral, além de voar de jatinho de empreiteiro, pode ou não pode remunerar o povo do funk para chamar as patricinhas do Leblon de cachorra, mesmo que essas não vejam nisso mal nenhum, como atesta em carne e fala Heloísa Faissol, a riquinha da zona sul que adora o epíteto de Galinha do Funk. Depois, independentemente do futuro do projeto da deputada entre os seus pares, que são quem, na verdade, vão decidir se ele vai ou não se tornar lei, a tese da brincadeira elogiosa e celebratória é para rir, não é não?


CANASTRONA - Na hora em que se trata da relativizar e aliviar o peso das ofensas midiáticas proferidas contra a mulher e sua sexualidade e corpo, é impressionante como as vítimas dos outros preconceitos se tornam tolerantes de carteirinha. Há, na história da MPB, letras de viés misógino e com ofensas contra as mulheres? E como! Mas o tempo não faz as coisas mudarem? A inquisição matava gente e hoje isso soa uma aberração. O cancioneiro popular, até bem pouco tempo, dizia o que queria sobre negros, mulatas e pobres. Mas hoje, faça-se uma música com uma ‘brincadeira’ bem humorada com um deles e veja como o mundindo civilizado reage. Então, por que, só com a mulher, a tese da brincadeira e da homenagem deve prevalecer? 


Quer dizer que não se pode mais brincar com elementos da negritude, da homossexualidade, da pobreza, porque isso fere a dignidade da pessoa humana, mas com a mulher pode, Luiza? Infelizmente, o que norteia não apenas o projeto da deputada, mas sobretudo, as reações contra ele, é algo muito mais sólido e sério do que a forma canastrona como veículos de imprensa vêm fazendo enquetes com a pergunta mal formulada a leitores e telespectadores, associando o projeto a um ato de censura, inflando a polêmica rasa. A verdade dos fatos é só uma: cada povo tem o cancioneiro que merece. Muitas moiçolas adoram as brincadeiras do pagode e do funk. Por que? Ah, a resposta provavelmente seria enquadrada como atentado à dignidade feminina, ao passo que ser comparada a uma lata é só uma brincadeira ‘positiva’.  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 07 de agosto de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com