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domingo, 11 de dezembro de 2011

Teleanálise de Malu Fontes | "No ar, os armengues da Copa"

Malu Fontes, professora e jornalista
Enquanto os prazos para as obras de infra-estrutura que o Brasil precisa fazer para não passar vergonha internacional durante a Copa do Mundo começam a ficar estreitinhos, pipocam aqui e ali nos telejornais os sinais de que o famoso jeitinho brasileiro e os acordões que darão vantagens financeiras a poucos e ricos vai fazer a festa. Durante a última semana, os parlamentares apresentaram algumas pérolas que devem tornar a Lei da Copa digerível para a insaciável FIFA, que apresentou ao governo brasileiro trocentas e algumas exigências, da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios à proibição de meia entrada para quem não pode pagar pelos ingressos caros geralmente cobrados nos mundiais de futebol.

Não deixa de ser engraçado que o mundo e os berros ecoantes e onipresentes da televisão trombeteiem cada dia com mais adjetivos medonhos o cigarro convencional ao mesmo tempo em que é tão tolerante, leniente e dócil com o consumo de bebidas alcoólicas, cujos males, na sociedade brasileira, não ficam nada longe daqueles causados pelo cigarro, embora sejam sim males de natureza diferente. Por que a propaganda de cigarro é tão demonizada se a do álcool passeia ostensiva, livre e faceira na programação televisiva e em todas as plataformas em que cabe uma campanha publicitária? Ah, tá: a bebida alcoólica nada tem a ver com o índice de homicídios cometidos no Brasil, com dependência química, com as estatísticas trágicas da violência doméstica e com determinados dados epidemiológicos da saúde pública nacional.

FADAS E DUENDES - A julgar pelo espaço glamouroso que o consumo de álcool ocupa na televisão e no imaginário da boa sociedade brasileira, em contraponto com o cigarro amaldiçoado pelos corretos e limpinhos, não é de se estranhar que uma das principais exigências da FIFA para a Copa no Brasil esteja prestes a ser concedida com tapete vermelho no Congresso, nas agências publicitárias e, sobretudo, sob aplausos da poderosa indústria nacional de cervejas. A expectativa é a de que, talvez ainda nesta semana, o Congresso aprove a Lei Geral da Copa não apenas autorizando a venda e o consumo de bebida alcoólica nos estádios durante o mundial, mas, espertamente, estendendo essa liberação a todo e qualquer campeonato nacional, onde a prática vem sendo combatida em função dos índices de violência registrados nos estádios.

Diante do menor questionamento de que pode ser arriscado liberar a venda de álcool nos estádios, o otimista relator da Lei, o deputado Vicente Carvalho (PT-SP), foi de uma sensatez comovente para quem acredita em fadas, duendes e que tais e sobretudo na ressurreição da cordialidade do torcedor nos estádios: “Nós temos de apostar na civilização. O mundo inteiro pratica isso. Alguns estados brasileiros praticam isso. É só você ser mais duro na fiscalização e na penalização de quem cometer excessos”. Sim, todos os brasileiros, em cujas capitais dezenas de pessoas são assassinadas a cada fim de semana, não só acreditam na civilização como muito mais na fiscalização e na penalização. Não, ninguém acreditou jamais que o consumo de bebidas alcoólicas ficasse proibido nos estádios brasileiros na Copa do Mundo, mas a razão para isso não era nenhuma aposta da sociedade em civilização ou no rigor do Estado para vigiar ou punir excessos. A coisa tem outro nome e não custa nada dar nome às coisas: o lobby da indústria de bebidas e sua força junto à FIFA jamais seria derrotado.

toalha  - A liberação da bebida nos estádios é só lado mais business dos acordões que ainda se darão em torno da Copa. O diabo mora é nos armengues que ainda serão anunciados e estes deverão ser muitos. Instâncias do governo praticamente já jogaram a toalha de que vão armengar como podem as obras nos aeroportos das capitais nas quais haverá jogos. A admissão de que as coisas não serão feitas se traduz em outra forma de declaração: as empresas privadas de aviação vão poder usar as bases aéreas militares para coletar e despejar seus passageiros. Se os aeroportos já não têm estrutura, imaginem-se multidões de brasileiros e gringos embarcando e desembarcando em bases militares jamais preparadas para esse tipo de fluxo...

Para não perder o caráter paternalista nacional e ao mesmo tempo não agredir tanto os bolsos furiosos e famintos da FIFA, ao invés de meia-entrada para TODOS os estudantes e idosos, como inicialmente defendia o governo brasileiro, a relatoria da Lei Geral da Copa achou uma saidinha: o texto prevê a destinação de um lote fechado e inalterável de 300 mil ingressos, incluindo todos os jogos, custando a metade do preço e já categorizados como “Cota Social”.

CAMPEÕES DO PASSADO - Sim, as cotas chegaram à Copa. Além dos estudantes e dos idosos, os índios e os beneficiários dos programas sociais do governo, como o Bolsa Família, também terão o direito de disputar a tapa esses 300 mil ingressos da Cota Social, cujo valor unitário não deverá ficar abaixo de 50 reais. E ainda há um mimo empurrado de última hora na Lei Geral da Copa, embora qualquer pessoa sensata se pergunte o que tal benefício tem a ver com uma legislação que deveria ser específica para um mundial de futebol. Foi incluída no projeto, de última hora, a criação de um prêmio de 100 mil reais para os campeões das copas de 1958, 1962 e 1970, além de um auxílio financeiro mensal para jogadores da seleção no passado e que hoje vivem com dificuldades financeiras. Embora os jornais tenham anunciado na última semana que o Brasil parou de crescer, parece que, em tempos de oba-oba, o delírio de alguns representantes do povo de pedir esmola com o chapéu dos outros vai de vento em popa.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 11 de dezembro de 2011, no jornal A Tarde, Salvador/BA; maluzes@gmail.com